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Rudá Ricci

Eu já escrevi isso nas redes sociais e no meu livro sobre 2013, mas vou repetir aqui dois episódios interessantes das jornadas de junho e que podem ter paralelo com o que está se formando agora (desde domingo e que vai continuar nos próximos finais de semana).

EPISÓDIO 1: no dia 26 de junho ocorreu a última manifestação daquelas jornadas de 2013 em Belo Horizonte. No final, algumas concessionárias de carros começaram a pegar fogo. Eu liguei para algumas lideranças das jornadas e perguntei o que ocorria. E fiquei surpreso. Ao contrário da narrativa lulista que diz que 2013 foi coisa da direita, era uma outra esquerda que estava lá: anarquista ou autonomista. Eu falei com vários membros desses coletivos. Era tudo muito organizado. Bom, a resposta foi: “olha bem na TV. Não somos nós. São os meninos dos morros que desceram para enfrentar a PM. Eles são magros, negros, sem camisa. Dá uma olhada como eles chamam a PM para a briga. E as PMs não vão. Eles se conhecem de outros confrontos”.

SP e DF tiveram participação – ou invasão – de gente de direita, mas no resto do país, eram traço. Acontece que anarquistas e autonomistas não são muito queridos dos partidos da esquerda, digamos, tradicionais. Mas, vai uma informação: a juventude do PT apoiou as jornadas. Aliás, expoentes da juventude do PT me procuraram. Falavam da necessária renovação de quadros do PT. Mas, como sempre, foram abafados pelos “quadros”. Enfim, 2013 foi muito mais complexo que uma historinha simplória que tenta alinhar acontecimentos distintos.

EPISÓDIO 2: O outro episódio foi depois das jornadas. Ocorreu em julho ou agosto. Aqui em Belo Horizonte, a Assembleia Popular Horizontal (APH), instância de deliberação que ocorria em pleno dia e que juntava 2 mil jovens embaixo de um viaduto no centro de BH, continuou funcionando. Aliás, a APH fazia assembleias que inovavam muito. Havia um mediador que ficava no “palco” e um outro, que ficava no meio da multidão que participava da assembleia. O objetivo desse segundo era ouvir quem era mais tímido ou dar a palavra para quem estava meio escondido. Mas, o que quero contar é um episódio que envolveu o coletivo de educação da APH de BH e a Secretaria Estadual de Educação. Os governantes – todos – ficaram desesperados com as manifestações. Não sabiam o que fazer. O governo mineiro, decidiu chamar o coletivo de educadores para ouvir os jovens e negociar. Nessa reunião entre membros da Secretaria Estadual de Educação e participantes do coletivo de educação da APH, foi discutida uma longa pauta de demandas e críticas dos manifestantes. Ao final, um dirigente da Secretaria agradeceu e disse: “Queremos pedir duas semanas para que as diversas diretorias discutam essas reivindicações e sugestões e, se aceitarem, voltamos a nos reunir logo depois. Aceitam?”. Silêncio. De repente, uma das participantes do coletivo de educação disse: “Não vai dar”. O relato de quem participou da reunião dá conta de um ataque de nervos dos dirigentes da Secretaria Estadual de Educação. Fizeram um longo discurso dizendo que não estavam ali de brincadeira etc. e tal. Os participantes jovens se olharam e responderam: “Então, fica assim”. A participante do coletivo disse: “Nós não representamos ninguém. Nós só nos representamos. Não há liderança neste coletivo. Podemos levar sua proposta para o coletivo, mas pode ser que não aceitem ou venha outra comissão da próxima vez”.

Esse segundo episódio revela o desencontro total entre as formas burocráticas de organização de um governo e a maneira fluida e elástica de organização de 2013 e que se repetiu diversas vezes de lá para cá. Sou testemunha de como todos partidos e lideranças se desesperaram em 2013. Lembro de um convite de Eduardo Campos para eu explicar para o PSB o que estava ocorrendo. Falei para um coletivo da Rede de Minas Gerais, cheguei a discutir com Marina na Faculdade Dom Hélder. PT, PCdoB, vários outros partidos ficaram atônitos. Participei no Instituto FHC de uma fala ao lado de Ronaldo Lemos para discutir o que parecia ser algo inexplicável. Enfim, todas as forças políticas ficaram atônitas com 2013. E, naquele momento, todos percebiam ser uma mobilização estranha, mas legítima.

Um dia, comentarei como os governantes, incluindo Dilma Rousseff, resolveram, a partir de outubro de 2013, desmantelar toda a organização jovem de junho. Poderia ter nascido algo novo. Parte da esquerda chegou a pensar em fundar um outro partido, nos moldes do Podemos. Tivemos muitas articulações pela esquerda caudatárias de junho de 2013, como o Movimento Raiz Cidadania ou a articulação para criar um partido a partir do PPL. Essa história ainda precisa ser contada.

Contudo, o que gostaria de reforçar é como 2013 já criou um estranhamento de uma nova lógica organizativa e o aparecimento de novos atores sociais (incluindo os jovens dos morros e periferias) que, agora, parecem reaparecer. Continuaremos ignorando a novidade?

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.