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Entrevista com Daniela Arbex

Este ano o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, completa 30 anos. É o mais importante instrumento de proteção e garantia dos direitos de crianças e adolescentes como dever da família, da sociedade e do Estado. Após três décadas de lutas, questionamentos e interpretações, muitas vezes sem fundamento ou amparo legal, a grande pergunta é: o Brasil avançou em suas políticas públicas de proteção à infância e à juventude? Ninguém melhor para trazer o assunto à discussão que a jornalista Daniela Arbex, uma das mais atuantes na defesa pelos direitos humanos, tendo dedicado parte de sua carreira a contar histórias de vida de mulheres, crianças, adolescentes e jovens que buscam por reconhecimento, igualdade e dignidade. Arbex é autora do best-seller Holocausto brasileiro, eleito Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor Livro-Reportagem no prêmio Jabuti (2014).

A jornalista, escritora e documentarista concedeu uma entrevista, um bate-papo, para o site Unidade na Diversidade, do qual o Instituto Cultiva também é um dos apoiadores. A entrevista com Daniela Arbex foi conduzida pelo presidente do Instituto Cultiva, Rudá Ricci, a Socióloga Tânia Dornellas e o delegado da Polícia Civil no Rio Grande do Norte, Fernando Alves. Durante pouco mais de 40 minutos, Daniela rememorou algumas de suas principais reportagens para comentar como o Estado se fez ou não presente na vida de muitas pessoas. Uma delas é o menino Júnior, uma criança que brincava e pedia dinheiro nos semáforos de Juiz de Fora.

Ela denunciou várias vezes o fato de ele estar fora da escola, as falhas das políticas públicas que permitiram que ele estivesse na rua, até ser internado em um Hospital Psiquiátrico, até ir preso e ser assassinado aos 21 anos. “Aos 14 anos, o Júnior comete o seu primeiro ato infracional, ele pega em uma arma pela primeira vez. Aí, ele nasceu para o Estado, porque do zero aos 14 anos ele era invisível para o Estado, só depois quando cometeu o seu primeiro ato infracional ele nasceu para o Estado e foi criminalizado”, relatou a jornalista.

Outra reportagem destacada foi sobre uma pesquisa acadêmica feita por alunos da Faculdade de Psicologia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, que ganhou o título de “Por trás das gangues”. A pesquisa revelou atos de violência entre as gangues e traçou um perfil dos jovens envolvidos na criminalidade. “O mais impressionante que essa pesquisa mostra é o quanto a falta de afeto compromete todo o desenvolvimento humano. Esses meninos vivem num ambiente completo de falta de afeto e de cuidado e passam a não ter apresso pelo outro, quando se agregam em gangue e passam a matar é porque aquele outro é não é outro, é nada, exatamente porque essa falta de afeto causa o desapreço pelo outro”, explicou Arbex.

Em 2009, a jornalista foi contratada pelo Sindi-Ute, o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), para produzir a Revista “Radiografia da Educação Mineira”. Durante 10 dias, Daniela visitou 15 escolas estaduais no norte, centro-oeste e sul do estado, além da capital mineira. O trabalho divulgado na revista, de 30 páginas, ajudou a desmitificar a imagem de uma educação avançada na época, pois muitos alunos eram “empurrados” para impulsionar estatísticas e números da educação. “Encontramos vários brasis, nos municípios que passamos, tinham escolas que eram ilhas de exclusão, as escolhidas pelo Governo Mineiro, como as escolas modelos, que receberiam recursos e apareceriam na mídia, e tinham meninos estudando em paióis, foi inacreditável, era um contraste muito grande”. Segundo ela, nessa época (período em que fez as reportagens para a revista – 2009), chegou a encontrar investimento de 11 centavos por aluno ao dia.     O raio-x   da educação revelou vários outros problemas. A publicação ganhou menção honrosa no prêmio Vladmir Herzog.

Ainda durante a conversa, Daniela e os entrevistados também falaram sobre o sistema de cotas, sobre o abuso e a exploração sexual de meninas e de meninos com base em exemplos reais e explicitando a falta de políticas públicas mais adequadas para acompanhar as crianças e adolescentes. “O dever de casa, que é óbvio, é zelar pelos primeiros anos da infância, criar políticas consigam inserir esse adolescente, porque, na verdade, tem política pública pra infância, mas, para a adolescência, são pontuais, e esses meninos ficam perdidos, são muitas questões”, comentou Arbex ao falar sobre a falta de aplicabilidade do ECA ao ser indagada sobre o que pode ser feito para mudar a situação.

“Precisamos criar esses fóruns de discussão para que possamos forçar o poder público a agir. É isso que eu tento fazer com o meu trabalho há 25 anos. Eu acho que a gente avançou em muitas coisas, inclusive na criação de políticas que a gente não tinha. Mas ainda falta muita coisa. O ECA é maravilhoso, mas ele é incompreendido até hoje, infelizmente. Quando eu vou dar palestras em escolas e escuto de alguns professores ‘Ah!, esse ECA passa a mão na cabeça dos meninos’, eu me arrepio. É uma falta de diálogo, de compreensão do que é, ou do que a lei propõe, de quem vai aplicar essa lei e de meios para essa lei seja adequadamente aplicada”. Daniela Arbex

Daniela Arbex é uma das jornalistas mais premiadas de sua geração, com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais no currículo, entre eles três prêmios Esso, o americano Knight International Journalism Award (2010), o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina (2009) e o Natali Prize, que ela recebeu na Bélgica em 2002. Foi repórter especial do Jornal Tribuna de Minas por 23 anos. Atualmente dedica-se à literatura.

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