Por Rudá Ricci

1) Vou eleger três grandes conceitos para fundamentar meu fio. O primeiro conceito de Paulo que quero ressaltar vem da sua leitura atenta à fenomenologia. Paulo ressaltava que nosso primeiro discurso é o da percepção
2) Quando ingressamos num local, o impacto visual, do som, dos cheiros, do ambiente em si, nos dá um conjunto de informações que rapidamente traduzimos em certo valor ou sensação. O cérebro vasculha experiências já vividas e gera um “julgamento sensível”, não racional
3) Então, qualquer freireano sabe que precisa iniciar o diálogo com o educando a partir do sensível, do que ele sente a respeito da vida ou de um tema. Isso pode ser feito com diversos instrumentos que provoque sua fala. O mais importante, contudo, é a escuta
4) Não se trata de algo fácil de ser feito. Há quem não fale, que se revele pelo silêncio, pelos gestos. Há até um cordel, escrito por Antônio Pessoa Leite, de Carnaúbas, no Rio Grande do Norte, publicado no folheto Falando por quem não fala (Natal, 1997), que trata disso
5) Então, a primeira observação que faço é que a maioria dos secretários de educação do nosso país nem passaram ao largo da escuta do sentimento de nossos alunos em meio à pandemia. Há exceções. Soube que a secretária de educação de BH promoveu esta escuta. Mas, não é a regra
6) Já citei aqui a maior pesquisa realizada no Brasil com jovens entre 15 e 29 anos. Foram 33 mil jovens que falaram de suas apreensões em relação à pandemia
7) O que os jovens disseram?
a) que estão com muito medo de perderem familiares
b) que estão trabalhando mais porque a renda familiar caiu
c) que esperavam que as escolas lhes ajudasse e controlar suas angústias e que ajudassem a se organizar emocionalmente
9) Esses dados dizem algo para nossos gestores, não? Por que, então, insistem em formular aulas “normais”, sem escuta, concebendo as escolas como linhas de produção das indústrias do século passado? Qual o motivo da pressa?
10) Pior: mesmo derrotados na votação do Fundeb, empresários continuam pressionando. A fala de Viviane Senna é, no mínimo, imprudente. Disse: “Está claro que a reabertura das escolas não agrava a pandemia”. De onde tirou isso se há dezenas de pesquisas que afirmam o contrário?
Nível 12:
11) Vamos dar outro passo. Um segundo conceito dos mais importantes formulados por Paulo Freire foi o de “ad-mirar”. Este é um exercício estimulado pelo educador junto aos alunos. Ad-mirar significa “se olhar de fora”: Uma leitura mais crítica sobre nossas escolhas
12) Aqui está uma das provas de como o pessoal da Escola Sem Partido ignora por completo o que propôs Paulo Freire. A sugestão é instigar para que os educandos tenham plena consciência do que fazem, de seu papel social. Não há uma orientação, mas uma reflexão. Trata-se de método
13) Sem isso, não há construção de cidadania. Eu preciso me ver no todo para poder me controlar, não ser egoísta e lutar apenas para o que desejo, passando por cima de todos e rejeitando qualquer cuidado com o mundo e as pessoas. Algo parecido com psicanálise, não?
14) Volto ao que nossos secretários de educação estão fazendo. Em alguma proposta percebem este passo entre a escuta e a construção de espaços que discutam a pandemia, a volta ao “novo normal”, as perdas e mudanças em nossas vidas? Ou há uma pressa medonha focado nas provas?
15) Sabemos que grande parte das decisões do Consed, o conselho de secretários estaduais de educação, vêm focando uma linha gerencialista e não pedagógica. Implantam modelitos de currículo e avaliações externas que não dão certo.
16) Já disse aqui que a formuladora – Diane Ravitch – das avaliações externas – tipo IDEB – e premiação de escolas e professores que melhorassem os indicadores afirmou recentemente que tudo o que acreditava estava errado e fracassou.
17) Numa das passagens de seu livro, Diane Ravitch afirma que essa obsessão por matemática e língua materna simplesmente não desenvolveu a inteligência dos estudantes. Mais: que as escolas passaram a treinar os alunos para testes, mas não para raciocinar.
18) Finalmente, destaco um terceiro conceito fundamental de Paulo Freire: o do incentivo à construção da autonomia dos educandos. Autonomia não é liberdade total. Ao contrário, nasce do movimento anterior, de se ver de fora. Autonomia gera autocontrole, algo que está em falta
19) A auto-norma se relaciona com a inteligência intrapessoal, que o neurologista de Harvard, Howard Gardner, provou ser uma das inteligências que todo ser humano possui. Se eu me controle, convivo. E o contrário de violência é… convivência
20) Para ser autônomo, preciso pensar o que sou, o que quero, o que posso ser e meu papel no coletivo, no todo. Nada que se relacione com esses modelitos anglo-saxões que focam no sonho individual, no sucesso individual, nunca no coletivo. A autonomia é uma relação social
Nível 22:
21) Ora, é evidente que é exatamente o contrário o que está se propondo para a educação brasileira neste momento de angústia de pais, crianças, adolescentes e jovens, de crise sanitária e social. Eu diria que nossos gestores em educação parecem absolutamente insensíveis
22) Há muitas experiências em curso que poderiam ser consideradas neste momento. É o caso das aulas por rádio, em Alagoas, muito elogiada pelos jovens. Ou as experiências de auto-organização de moradores de favelas – caso de Paraisópolis, SP.
23) Há, ainda, propostas pedagógicas que poderiam inspirar projetos educacionais adequados à situação atual. Este é o caso da Pedagogia da Alternância, empregada nas Escolas Família-Agrícola.
24) Esses são os princípios freireanos que gostaria de destacar, dentre tantos que este brasileiro genial nos deixou de presente. Paulo, hoje, faria 99 anos. É referência no mundo todo. Mas, por algum motivo, aqui no Brasil é pouco estudado, embora seja muito falado.
25) Termino explicitando minha surpresa com o modo como nós, brasileiros, tratamos aqueles conterrâneos que são orgulho mundial. Simplesmente não entendo este esporte nacional de destratar nós mesmos. Há algo de doentio. Paulo Freire não é nosso maior educador. É nosso orgulho!