Tudo começou com Aécio Neves no governo de Minas. Ele remodelou o jeito mineiro de fazer política, adotando um estilo yuppie, essa sigla que traduz o perfil jovem e urbanoide de ser. Os yuppies são reconhecidamente carreiristas, focados em ascensão profissional e emergiram nos anos 1980. Adoram marcas de luxo e exalam o sucesso por “esforço próprio”, o que nem sempre é a realidade, mas que sugere que não dependem de ninguém.
Aécio era este yuppie que entrou na política pelas mãos do avô. Tancredo personificava a política mineira, ou seja, era um símbolo contido numa tradição. Ao chegar num município do interior, almoçava várias vezes e, se fosse o caso, jantava outras tantas vezes. Se reunia com raposas locais e quase nunca vazava o que havia conversado.
Aécio foi o oposto como governador. Chegava numa localidade, participava de um evento público e partia para outra empreitada, deixando as raposas locais falarem e maquinarem em seu nome.
O avô era um símbolo que alimentava a tradição política. Quase que seguia um manual de comportamento: matreiro, falsamente humilde, muita escuta, muita habilidade, frases de efeito. Os elogios vinham dos outros, nunca feitos por ele mesmo.
Aécio não representava uma tradição. Ao contrário, representava a si e liderava um mosaico de lideranças locais com certa margem de autonomia. Falava de si na primeira pessoa e não negava seu estilo vistoso e grandiloquente. Trazia o novo, o moderno para Minas Gerais.
A ele se seguiu outro estilo yuppie, o do petista Fernando Pimentel. Já como prefeito deixou claro que era hora de mudar o “modo petista de governar” que daria lugar a um projeto de ambientação da capital mineira para atrair investimentos que poderiam torná-la uma cidade global. Para tanto, precisava se relacionar com grandes empreiteiras e investidores imobiliários e abandonar de vez a lógica da “inversão de prioridades” da origem dos governos petistas.
Estranhamente, a maioria do eleitorado mineiro não reagiu a este novo ciclo da política que confrontava as tradições. Ficou quieta e passivamente se tornou espectadora da transformação. Até que veio 2015 e a avalanche que derrubaria o governo de Dilma Rousseff.
Em Minas Gerais, a queda de Dilma Rousseff foi uma virada de página no estilo mineiro. Foi algo tão rápido e avassalador que significou a ascensão e queda da “Turma do Chapéu” o grupo de choque juvenil montado para apoiar Aécio Neves. Em 2011, esta corrente era festejada no PSDB mineiro como uma iniciativa da Juventude de Belo Horizonte que empregava novas ferramentas de comunicação para mobilizar. Na liderança, o hoje político profissional Gabriel Azevedo e alguns hackers que seriam atraídos pela irmã de Aécio. Agressivos, “ma non troppo”, abriram caminho para alas mais radicais da lógica “faça você mesmo”.
De 2011 a 2015, este pequeno reinado dos yuppies e hackers tucanos deu lugar à extrema agressividade da Geração Zsuz, os jovens evangélicos extremistas que descobriram a política a partir da ofensiva macartista da Operação Lava Jato. Nasceram sobre a marca da destruição de tudo o que era passado para abrir ala para sua própria ascensão.
A Geração Zsuz tinha algo de yuppie, mas era ainda mais agressiva, menos vinculada às tradições políticas e sustentava uma religiosa muito distinta da emanada pelos velhos caciques da política mineira.
Retomo Tancredo Neves para sugerir o uso distinto da religiosidade na política. Tancredo se apoiava na tradição das irmandades católicas mineiras, essas associações leigas surgidas no período colonial devido à proibição das ordens religiosas por Dom João V. Havia uma ou outra irmandade de base popular, envolvendo negros, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e Santa Ifigênia. A irmandade de Tancredo Neves era da elite branca. Era membro da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, uma tradicional irmandade católica em sua cidade natal, São João del-Rei. Tancredo foi presidente desta irmandade e ministro jubilado, uma distinção oficiosa. Era conhecido por participar da caminhada até o Santuário da Santíssima Trindade, em Tiradentes, um trajeto religioso tradicional na região. Esta confraria consolidava uma cumplicidade adornado pela mística, convenções e costumes marcados por sinais nem sempre óbvios para quem não era integrante. Algo que reforçava a lógica mineira de fazer política.
O envolvimento e uso da religião pela Geração Zsus é mais acusatória que identitária. Os valores religiosos, neste caso, têm nos dogmas de comportamento um aríete que acusa e ataca adversários ou diferentes. Mesmo nas igrejas que frequentam, diferentemente do que ocorria nas confrarias, não é o espírito de corpo e os rituais de fortalecimento de lealdades e identidades que são exaltados, mas o uso dos púlpitos para aliciamento a uma espécie de guerra santa.
O governador Zema é uma tentativa de unir caricaturalmente o jeito tradicional de ser político mineiro com a agressividade das lideranças extremistas da Geração Zsus. Acaba ficando no meio do caminho.
A mudança em Minas Gerais é perceptível no comércio de Belo Horizonte e demonstra uma nítida demarcação de classe social.
Nos últimos anos, se multiplicaram cafés de alta gastronomia e shoppings semi-abertos de alto luxo que povoam a região preferida pelos novos ricos, o bairro Belvedere. A cidade ainda mantém o centro nervoso com ruas apinhadas de gente que circunda o famoso Mercado Central. Mas, há poucos metros do “Mercadão”, se encontra o Mercado Novo que, no seu terceiro andar, faz uma transição entre o popular e tradicional e o sofisticado, oferecendo cafés, restaurantes, queijarias, padarias de alto luxo embalados num formato arquitetônico popular. Em suma, um formato popular para um conteúdo de luxo.
Esta mudança em curso no comércio belorizontino sempre me salta aos olhos como a parte visível desta mudança de comportamento que se espraia pela política mineira.
A questão em aberto é para onde esta transição levará Minas Gerais no cenário nacional. Da cultura mais lusitana do país para um estilo americanizado, agressivo e ostensivamente paulista, fico pensando neste novo lugar que o político mineiro começa a ocupar no imaginário nacional.
No momento, é algo indefinido que gera reações de todos os lados no sistema partidário mineiro, mas que dá certa sensação de desarranjo. Não é mais o conhecido estilo do político mineiro, de Benedito Valadares, de JK, José Aparecido e Tancredo Neves. É outra coisa: mais agressivo e mais de ações de rua.
Fiquemos atentos. Estamos vivenciando mudanças importantes na cultura e identidade nacionais. E, neste quesito, Minas Gerais sempre foi um para-raios.
Sociólogo, mestre em ciências políticas e doutor em Ciências Sociais. Presidente do Instituto Cultiva. Ex-consultor da ONU. Coordenador do Pacto Educativo Global no Brasil.