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Rudá Ricci

De algum tempo para cá, a noção de juventude passou a ser plural. Agora, se fala em juventudes. O plural se refere, até aqui, as diversas identidades ou subculturas, as inúmeras tribos ou times. Mas há algo que já se percebia desde a virada do século anterior para o atual que vai se cristalizando: a inconstância das juventudes.

É possível que as redes sociais tenham emplacado uma nova forma de sociabilidade, mais fluida, acelerada, onde a ideia do dia anterior submerja em meio à uma profusão de novas informações e interpretações. Pode ser, ainda, que as juventudes sempre foram assim, mas não tinham seu habitat ideal à mão, com a internet e as redes sociais ao alcance do celular. O fato é que esse dilema de quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, nunca nos ajudou a chegarmos a algum lugar razoável.

Os dados que temos sobre acesso às redes sociais pelas crianças, adolescentes e jovens brasileiros indicam essa fluidez e inconstância. Mais de 24 milhões de crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet no Brasil, segundo pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018. Significa que mais de 85% das crianças e adolescentes do Brasil acessam a internet. Na faixa entre 15 e 17 anos, o percentual é um pouco maior:  86% de usuários. Crianças e adolescentes assistem a vídeos, programas, filmes ou séries na internet. A internet é mais usada por meio de telefone (93%), e desde 2014, o uso de celular ultrapassou o de computadores.

imagem-jovens-celular-comportamento-2A mesma pesquisa TIC Kids Online, indicou que WhatsApp e Instagram como as principais redes usadas no Brasil neste intervalo etário. Porém, se olharmos com cuidado, percebemos uma mudança de comportamento num curto intervalo de tempo. Whatsapp e Facebook trocaram de lugar, na preferência de crianças e adolescentes brasileiros entre 2015 e 2018. O Instagram passou a ser mais utilizado neste período e o Snapchat e o Twitter, que pareciam em evolução, caíram ou estacionaram num patamar bem baixo de uso. Isso talvez dê uma luz sobre a mudança atual de parte da juventude brasileira em relação à pandemia e ao governo Bolsonaro. Uma parte considerável dos jovens apoiou Bolsonaro em 2018. Pesquisa coordenada por Isabela Oliveira Kalil, do Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, indicou 16 agrupamentos sociais que tiveram forte participação na campanha do atual presidente. Três desses grupos eram compostos por jovens.

O primeiro subgrupo de jovens que apoiou Bolsonaro em 2018 é o composto por nerds, gamers, hackers e haters, majoritariamente por homens entre 16 e 34 anos. Eles se reúnem em fóruns restritos, jogos online e caixas de comentários de sites de cultura pop. Citam muitos personagens do mundo dos games e HQ, além de filmes. Sentem prazer em organizar ataques a algumas páginas de personalidades por quem não têm apreço. Foram responsáveis por disseminar a imagem de Bolsonaro como “mito”, além de projetar o perfil jocoso e provocador. Repudiavam perfis progressistas nas redes sociais, além de perfis feministas ou gays.

O segundo subgrupo jovem foi o composto pelos que pregaram voto rebelde contra a “doutrinação marxista”. É formado por jovens estudantes do ensino médio ou estudantes universitários, de 14 a 30 anos, que não se sentem acolhidos pelo ambiente escolar e se sentem privados da participação em grêmios e centros acadêmicos em razão de posicionamentos políticos. Nos grupos de estudantes do ensino médio público apareceram apoiadores que enxergavam Bolsonaro como um outsider que conferia ao ambiente escolar a noção de voto “descolado”. Entre os estudantes de ensino médio privado, encontravam-se aqueles que eram contrários às políticas públicas que possibilitam acesso dos jovens de ensino público na universidade e, qualquer mecanismo de cota que “facilite” ou “privilegie” certas camadas sociais. Dentre os universitários, os discursos sobre cotas e mecanismos que incentivam a entrada de certos grupos sociais no ensino superior, se destacavam os envolvidos num discurso que se autoidenficavam como “estudantes pela liberdade”.

Finalmente, o subgrupo de jovens influenciadores digitais, focados na defesa da meritocracia e na chancela “salvando o Brasil de se tornar uma Venezuela”. Produtores de conteúdo para as redes sociais, como Youtube, Instagram e Facebook, não eram inteiramente contemplados pelas perspectivas de Jair Bolsonaro, seja política, moral ou economicamente, mas acreditavam que no momento era a melhor saída “arrumaria a casa” e combateria a corrupção. Se reagrupavam em convertidos (pessoas que já foram comunistas, gays, feministas, ateus ou militantes de esquerda) e celebridades (cantores, atletas e artistas), pensadores (intelectuais e jornalistas que lançam tendências, realizam análises e, por vezes, possuem afinidades ideológicas com a direita internacional). Sentem forte repulsa ao “comunismo”, “às ideologias de esquerda” e aos movimentos sociais ou quaisquer grupos que possuam preocupações com as minorias sociais. Denunciavam, durante a campanha de 2018, o “autoritarismo da esquerda” e disseminaram o discurso antipetista e a luta contra a corrupção.

Esses três subgrupos jovens que apoiaram Bolsonaro em 2018 parecem se desgarrar do “mito” nesse segundo trimestre de 2020. Felipe Neto parece ser o emblema desse movimento. O que estaria provocando tal mudança nesta parcela da juventude (ou das juventudes)? Arriscaria dizer que é uma mescla de frustração, esgotamento e rebeldia. A velha mutação juvenil sendo acionada.

Não descartaria que parte dos jovens que desejava que Bolsonaro “arrumasse a casa” se frustrou com a balburdia que se revelou o seu governo. Com a saída de Moro, o abalo pode ter sido ainda maior. Embora não tenhamos pesquisas a respeito do impacto entre jovens da saída do ex-ministro da justiça do governo Bolsonaro, o impacto nas redes sociais pode sugerir uma tendência. O “Vem Pra Rua Brasil” incluiu a hashtag #BolsonaroTraiuMoro em uoum post que teve 7,2 milhões de compartilhamentos. O nome do ex-juiz foi o termo mais comentado no Twitter, com 1,2 milhão de menções. As hashtags #BolsonaroTraidor, #ForaBolsonaro, #TchauQuerido e #BolsonaroEnlouqeceu estiveram nos tópicos mais populares no dia da demissão.

O esgotamento, possivelmente em menor número, parece estar afetando a todos os brasileiros, em meio à clausura ou ao risco de ser contaminado pelo Covid19. Essa nova realidade afeta diretamente o sentimento de liberdade da juventude. Por esse caminho, a tentativa de Bolsonaro em excitar permanentemente seus apoiadores para adotarem posturas de confronto com medidas de segurança sanitária podem estar colidindo com as informações científicas e acontecimentos e declarações de celebridades de outros países que chegam aos jovens “descolados”.

Finalmente, o sentimento anti-establishment que forma grande parte do ideário jovem. Bolsonaro se tornou governo, o centro da república brasileira e, portanto, ou teria que ter alterado a lógica do poder estabelecido ou apareceria como parte do jogo tradicional da política. Sua incapacidade de gerar respostas e sua aproximação ao Centrão devem ter contribuído para parte dos segmentos jovens que o apoiou se sinta muito incomodado.

O fato é que o mundo gira. E gira ainda mais rápido quando se tem menos de 30 anos.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.