Jornalista Lucia Faria

“Quando vejo alguém que se corta ou que sofre bullying, eu acabo sendo responsável. A gente minimiza o problema hoje e depois ele vem com uma arma. Houve articulador que soube de criança que, aos nove anos, se cortava. É muito peso e muita dor. Aos 16, ele vai explodir” – Renata Paredes

Nem sempre são os alunos mais inquietos ou briguentos que requerem atenção. A apatia profunda também pode ser um sinal de que algo vai mal com a criança. Coube à articuladora educacional Aparecida Francisca dos Santos acompanhar o caso de uma aluna com esse perfil na EM Profa. Neyde Pião Vidal, na região Sul de Suzano. Não foi fácil para ela, que exerce a função de inspetora de alunos, adentrar na casa das famílias, receosa em invadir o espaço alheio e não ser bem recebida por isso.

“Não gosto que as pessoas me perguntem sobre minha vida, então imaginava que os outros também não gostassem. Mas, aos poucos, fomos ficando à vontade e criando relação de amizade com as famílias”, conta. Cida, como é chamada por todos, precisa agora encontrar um mecanismo para liberar tanta carga emocional dos seus ombros. Aos poucos, ela está avançando nesse sentido. “Evoluí como ser humano. Quando conheço as histórias, eu choro. Tenho vontade de colocar todos sob a minha asa”.

A razão da apatia da criança, por exemplo, é um dos casos que tirou o sono de Cida. A menina de sete anos se fechou após a prisão do pai, que violentou a irmã mais velha, fruto de relacionamento anterior de sua mãe. “As crianças carregam cargas emocionais muito maiores do que os adultos”, lamenta. Fechada em seus sentimentos e pensamentos, a menina também faltava muito na escola. Aos poucos, Cida mostrou à pequena o quanto ela era querida e importante, estabelecendo uma relação de amor entre elas. “Ela mudou muito. A professora me agradeceu e a mãe falou o quanto foi bom receber a visita da tia Cida em casa. No último dia de aula presencial, quando ela ia entrar no transporte, eu disse que a amava. Ela disse que sabia e que me amava também”, diz. Em paralelo, a menina foi encaminhada para receber apoio psicológico.

Ao que tudo indica, atenção e carinho também eram a demanda de outro aluno da escola. No refeitório era comum a briga dele com os coleguinhas, um “problema” que incomodava a todos por ali. Ao visitar a família, a articuladora descobriu que ao engravidar a mãe foi embora para outro Estado e o privou do convívio com o pai. Anos depois, ela reapareceu e devolveu a criança ao pai, agora casado com outra companheira. A madrasta não consegue lidar com o menino, paga a uma vizinha para tomar conta dele e pensa na separação.

“Percebi como essa situação era difícil para a criança e mudei meu comportamento. Quando alguém reclamava dele, eu dava atenção e conversava bastante com a criança. Deixei de ser a tia chata e passei a demonstrar carinho. Isso foi muito enriquecedor para mim também”, afirma. A conversa se estendeu à madrasta: “Ela está se esforçando, desenvolveu um novo olhar para ele e já não paga mais à vizinha para cuidar do menino”.

Embora seja a articuladora, Cida acha que a semente foi plantada em todo o time da escola. Percebeu isso quando uma cozinheira a procurou para alertar sobre a ausência de um garoto que costumava repetir a refeição três vezes. A partir dessa observação, Cida descobriu que o pai vive de reciclagem e que, quando sobra algum trocado, compra um pacote de bolachas para a criança passar o dia. O caso foi encaminhado ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município e a família está sendo assistida.

E, assim, Cida torce para a pandemia acabar e voltar a conviver mais de perto com os alunos. “O projeto desenvolveu muito em mim a empatia, palavra do momento, mas que não praticamos o tempo todo. Ninguém consegue ser empático 24 horas por dia. Aprendi a lidar com eles de outra maneira”.

“Muitos alunos saem da escola e vão direto para os semáforos. Na pandemia tiveram de ir com as mães para as ruas. Isso dói muito” – Amanda Delgado