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 Rudá Ricci

Fonte: @janetechargista

Ontem (06/06), fiz uma live à noite sobre a crise do modelo de representação política do século XX e as novas formas que apareceram nesses poucos anos do século XXI. Vou postar aqui um resumo e sugerir uma leitura sobre as manifestações atuais.

No século XX, as estruturas de organização, incluindo as de representação, se conformaram a partir de forte verticalização e ação unificada. Foi o século das multidões, lembremos. Os organizados se vinculavam às estruturas com comando, setor administrativo e militância. Mais importante: essas organizações geravam ações unificadas entre seus membros. Tomada a decisão, todos seguiam o mesmo rumo e adotavam as mesmas bandeiras. Era comum, então, que em manifestações se visualizassem blocos de bonés, camisetas e faixas do mesmo tipo, cor e conteúdo.

O que ocorreu de lá para cá? A sociedade se fragmentou. Empregos como os dos bancários pulverizaram e deram lugar a sistemas automatizados; as plantas industriais gigantescas foram substituídas por fragmentações (com sistema de just-in-time), e assim por diante. Surgiram os “uberizados“, que vão ao limite da estafa e do risco pessoal para conseguir alguma migalha distribuindo produtos pelas cidades.

As redes sociais formaram o locus, o habitat privilegiado dessa nova sociedade em forma de mosaico com diversas ramificações. As ramificações múltiplas das novas formas de contato – muito mais comunitário que societário – criam a possibilidade de cada um estar em vários agrupamentos virtuais simultaneamente, mesmo que eles não se conectem ou pensem da mesma maneira.

Bauman teve um insight e tanto ao dizer que no mundo atual, temos uma vida off-line, onde aparecemos como somos para o outro (fora das redes sociais), e uma vida online (marcada por avatares). Os avatares que muitos usam são ilimitados (basta lembrar do que faz Carluxo). Na prática, muitos adotam mais de uma personalidade e como se deixam envolver por opiniões e convicções distintas das várias comunidades virtuais que participam, sua ação pode ser também múltipla: participa de uma mobilização hoje e amanhã, talvez.

A relação afetiva é que conta mais que a razão. Temos, então, o surgimento da provisoriedade comportamental, incluindo o político. O que gera em termos de representação política? Ciclos cada vez mais curtos de legitimação de lideranças. Muitas vezes, a liderança política rivaliza, atualmente, com a celebridade instantânea. A celebridade é fugaz e raramente dita uma ideologia ou utopia, ao contrário de uma liderança. Daí vivermos sob a égide da troca de celebridades.

No mundo político, esta nova realidade corrói as velhas formas de ação e estabilidade das lideranças partidárias. Eleitas, viviam sob a segurança do mandato por um tempo relativamente longo. Agora, sua legitimidade perdura em ciclos cada vez mais curtos. Denomino essa instabilidade da liderança política e autoridade pública de “política de ciclo curto”. É cada vez mais raro uma liderança manter sua legitimidade por mais de dois anos. Vejam o desmoronamento de tantas lideranças políticas na última década aqui no Brasil. Lula é o que mais persiste.

Richard Sennett, em seu livro “O Declínio do Homem Público” já sugeria, no século XX, que estávamos mergulhando na Era do Ressentimento. O “homem comum”, sem poder econômico ou político de grandes proporções, se frustrava com o sucesso e vida abastada de autoridades. O ressentimento dava lugar ao fechamento em seus círculos de intimidade: família ou círculos de amizade minúsculos. Novamente, esse movimento social se encaixou no desenho comunitarista (de agrupamentos fechados) das redes sociais.

Então, o que temos em termos de modelos de manifestações de massa atualmente? Primeiro, a soma de comunidades, não uma multidão que pensa igual. Segundo, pautas que se relacionam com sua subjetividade, sua frustração e dor. Terceiro, a provisoriedade.

Evidentemente que se o que estou sugerindo como hipótese de análise estiver correta, as organizações do século XX, como os partidos políticos, terão dificuldades imensas para poder dialogar – ou mesmo compreender – com as novas formas de sociabilidade comunitária. No mundo sindical, já há experiências que procuram estabelecer vínculos com este novo perfil social. Nos EUA, já há um importante movimento trabalhista que se organiza em bairros ou demandas étnicas. Temas como assédio e racismo passaram a ser centrais.

Enfim, o mundo é outro e as lideranças políticas plasmadas em organizações verticais e burocratizadas sentem que a água já bate na cintura. Alguns, se refugiam no que se denominou na ciência política de “partidos cartéis”, dependentes de verbas públicas. Um partido-cartel depende do Estado, não do eleitor ou sua base social. Depende de cargos comissionados no Estado para profissionalizar sua militância, recursos públicos para alimentar seus prefeitos, fundos partidários para gerar ações e estudos. O eleitor passa a ser um detalhe.

Mas, partidos compromissados com trabalhadores ou menos abastados patinam no discurso e na tentativa de se conectar com este novo mundo fragmentado. Suas lideranças se esforçam e se perguntam qual deveria ser sua nova prática, seu novo discurso. Temos, assim, um fosso entre representantes e representados nos dias de hoje. Alguns representantes ou lideranças políticas são honestas e se empenham em achar a saída deste labirinto. Outros, tentam atalhos com discursos populistas e raivosos ou, ainda, o caminho do cartel.

Termino sugerindo cautela. Todo processo de mudança social nunca é definitivo ou aponta para uma única direção. Sempre faz um caminho tortuoso que se altera diversas vezes na sua trajetória. Em meio à uma pandemia demolidora, as incertezas são ainda maiores.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.