Por Rudá Ricci

Em entrevista ao jornal O Tempo, a deputada federal pelo PSOL-MG e candidata à prefeita em Belo Horizonte, dá uma escorregada e tanto. Em entrevista publicada no jornal em 23 de setembro, Áurea afirma (vou reproduzir excerto específico da matéria publicada):
{“O mais urgente é que seja construído uma diretriz de retorno às aulas. Nós não temos isso hoje, é pra ontem”, reforça, destacando que sem o documento muitas instituições de ensino estão tomando posturas diferentes. “Há escolas que estão conseguindo fazer atividades remotas, outras que não estão fazendo. Outras que estão conseguindo manter o vínculo com as famílias, outras que não estão conseguindo fazer esse acompanhamento tão próximo assim”, disse, referindo-se também às instituições.}
A construção desse protocolo é um dos temas que pretende levar ao debate junto aos representantes da comunidade escolar da cidade, afirma a matéria.
Vou propor uma leitura desta proposição que considero um equívoco grave. Mas, o ângulo que adotarei para propor esta leitura é a da inclusão deste discurso de Áurea a partir do ingresso de valores liberais no campo da esquerda brasileira.
O debate sobre a via liberal é antigo no campo da esquerda. No início do século XX, tivemos a famosa proposta sobre a via parlamentar reformista, liderada por Kautsky e Berntein. Foi o início da valorização da democracia liberal, exclusivamente representativa.
Mais recentemente, o eurocomunismo e, ainda mais próximo do nosso tempo, a discussão sobre a Terceira Via na Inglaterra (com Tony Blair assessorado por Anthony Giddens) trouxe valores liberais para o debate de uma vertente da esquerda europeia.
Lembro da discussão na Democratici di Sinistra (ex-Partido Comunista Italiano) sobre a fusão com Margherita (partido liberal). Estive presente no congresso realizado em Florença que decidiu sobre esta fusão. Gente do PPS e do PT estavam por lá. Neste congresso em Florença, sentei-me com representantes da esquerda de vários países europeus. Com os socialistas da França, perguntei o motivo de perderem musculatura eleitoral. A resposta de um importante dirigente francês foi: “não nos diferenciamos mais da direita”.
Contudo, no Brasil, esta confusão parece ainda mais perniciosa. Houve, em determinado momento, uma onda pragmática que arrastou a esquerda para uma guinada à direita. Avalio que esta guinada teve início na segunda metade dos anos 1990.
O pragmatismo bebeu, inicialmente, numa leitura sobre a correlação de forças restrita ao campo institucional. Sugeria que para ter poder seria preciso ter governos e parlamentos. E, para isso, deveria se acomodar às intenções populares, eleitorais. Esta vertente considerava que se a maioria das prefeituras e parlamentos eram compostos por gente de centro-direita, era sinal que o eleitorado tinha este perfil. A tarefa pedagógica da esquerda, de debate e polarização sobre valores, foi abandonada e se acomodou ao cenário estabelecido. Em outras palavras, qualquer ideário ou utopia foi jogado pela janela.
O primeiro movimento foi parte da esquerda focar no marketing político. Passou a vender candidaturas emolduradas em imagens palatáveis, candidatos “paz e amor”. A moldura marqueteira vende, mas não muda a realidade. Ao contrário: reforça vícios, tendências. Na melhor das hipóteses, cria intenções inconscientes, manietadas pelo marqueteiro, muito longe da construção da autonomia popular.
A partir daí, a esquerda brasileira abriu a comporta. Alianças com centro-direita ou direita passaram a dar o tom. Este tinha sido o modelo adotado por FHC na dobradinha PSDB-PFL. O PT adotou o mesmo viés, com o PL. Mas, não foi só. O governo passou a adotar o liberalismo.
A área econômica do governo Lula foi toda tomada por liberais sob a liderança de Palocci. Já citei aqui o documento Agenda Perdida, formulado por economistas da FGV e PUC RJ e gente que apoiou, mais tarde, a candidatura de Aécio Neves, como Samuel Pessôa. Sabemos o desastre político que esta guinada na agenda econômica causa. Basta lembrar o início da queda do segundo governo Dilma Rousseff com a adoção das propostas levyanas. Mas, a esquerda desconsiderou o que os mais pobres achavam desta agenda.
Não ficou por aí. O liberalismo ingressou com mais força na esquerda. E, com mais perigo: por correntes que se apresentavam aguerridas. Este é o caso dos identitários, que já analisei por aqui. Mas, não só.
Por esta porta ingressou uma das propostas mais desleais com os princípios históricos da esquerda: o empreendedorismo. O empreendedorismo é uma crença na pessoa, não no coletivo. É evidente que a vida de cada um é construída por seu esforço pessoal. Mas, não só. É de uma ingenuidade ímpar imaginar que a pobreza do país será superada com esforços individuais. Mas, houve gente que apostou em empreendedores pobres. Bastou o desmonte das políticas sociais promocionais que todas iniciativas pessoais desmoronassem.
Houve quem fez nome com esta guinada à direita. Caso de Tatiana Roque. Vendeu o individualismo como cartilha da felicidade plena. De acordo com IBGE, 10,3 milhões de brasileiros passaram fome em 2017-2018. Mas, para os defensores do empreendedorismo, tanto faz. Basta olhar a Terra Prometida “logo ali”, como dizem os mineiros.
Fomos além. E as diferenças entre liberais e esquerda brasileira foram diluindo ao ponto de parecerem irmãos gêmeos.
Então, retornemos à sugestão de Áurea Carolina que sacou o protocolo de volta às aulas como tema de campanha. Qual a intenção? Qual o debate entre educadores a respeito?
Áurea não propôs o retorno às aulas. Mas, qual o motivo de, então, propor este tema? Teria baixado o espírito de Tabata Amaral, aquela que tem rabo de jacaré, pés de jacaré, boca de jacaré, mas diz que não é jacaré?
Vou explicar os riscos da volta às aulas presenciais.
Pesquisa da Universidade de Granada indica que uma única sala de aula com 20 alunos produz 808 contatos cruzados em dois dias. Estudo da Soonchunhyang University, da Coreia do Sul, isolou 303 pacientes com teste laboratorial positivo. Conclusão: 36% assintomáticos. Segundo a pesquisa coreana, 110 deles (36,3%) estavam assintomáticos no momento do isolamento; 21 (19,1%) dos assintomáticos eram, na verdade, pré-sintomáticos, já que desenvolveram os sintomas posteriormente. Percebem? Podemos disparar a infecção entre crianças que não apresentam sintomas. Uma criança pega um ônibus escolar para retornar à sua casa. Na sua sala, havia um aluno assintomático. No ônibus, pode transmitir o vírus para mais 30 alunos que, ao chegar em casa, pode repassar à sua família e, num contato com seus avós, desencadear uma crise respiratória aguda. Vale a pena este risco?
Imaginemos que discutir protocolos seja uma precaução. Mas, justamente quando há pressão do setor privado para o retorno às aulas? Não seria de uma ingenuidade política quase doentia?
Pensemos nos protocolos. A Fiocruz já elaborou diretrizes. Mas, com o pé no chão, tentemos responder: nossas redes de ensino têm condições de garantir tais protocolos? No Brasil, 46,7% das escolas têm acesso a saneamento básico (água potável, coleta e tratamento de esgoto). Não vou desfiar os dados da absoluta falta de infraestrutura escolar. O Fundeb com o Custo Aluno Qualidade poderá corrigir esta situação. Porém, ele só chegará aos municípios em 2026.
Não, não se trata de cuidado ou prevenção. Trata-se de, na melhor das hipóteses, ingenuidade e despreparo de gente que se diz de esquerda. Na prática, jogam água no moinho do empresariado. Por quê? Despreparo? Ideologia frágil? Confusão política? Senso de oportunidade?
Enfim, acho que este pragmatismo liberal já chega, não? Não vale ganhar uma eleição para fazer o que a oposição prega. Se for assim, que a oposição de direita vença. Seria mais honesto. Essas posturas ambíguas do ponto de vista ideológico confundem a população.
Sim, estamos falando de honestidade política e ideológica. De disputa de valores. De clareza de posicionamentos. Não basta parecer aguerrido; é preciso SER aguerrido, lutar pela mudança deste país que é um dos mais ricos do planeta e o sétimo em desigualdade social.