(31) 9 9577-6556
Ricci entrevista Boulos em 2016

Boulos durante entrevista a Ricci em 2016

Por Rudá Ricci

Sou da última geração que enfrentou a ditadura militar. A que a enfrentou em seu momento de queda, a partir de 1977, 1978. Naquele tempo, havia muito de impetuosidade, mas também de medo. Sempre havia um risco alto, em qualquer lugar. Falávamos baixo nas conversas sobre política: alguém poderia, na rua, ouvir o que falávamos e nos denunciar. Poderia ser uma conversa banal sobre uma geada que atingiu a produção de café ou uma nota num jornal sobre algum conflito no interior do governo ou, ainda, sobre o que Ulysses Guimarães disse sobre o MDB. Não importava.

O risco existia. Fazer um abaixo-assinado era motivo para sermos denunciados ao DOPS, a temida delegacia da “ordem social”.

Em virtude deste clima de medo e de atenção extrema, toda liderança social que surgiu neste período tinha um sistema de alerta interno. Não eram líderes que atendiam a todos com um sorriso. Sempre tinham cautela, um olhar desconfiado, certo distanciamento de quem chegava pela primeira vez. Afinal, e se fosse alguma pessoa infiltrada?

Começo esse texto sobre Guilherme Boulos porque a primeira vez que fiz contato com ele, levei um certo “choque de gerações”. Foi em algum momento entre 2013 e 2014. Já tinha estado rapidamente com ele em São Paulo, mas o contato que realmente me vem à memória foi um encontro na sede da Funarte em Belo Horizonte. Os servidores estavam em greve e haviam ocupado as sedes da instituição, realizando rodadas de conversa e saraus. Boulos foi um dos convidados para falar numa noite lotada de jovens e militantes sociais. Ao final, eu o procurei para conversarmos sobre a possibilidade de produzir um livro sobre a trajetória do MTST – Movimento dos Trabalhadores sem Teto. A surpresa foi bem razoável quando ele não só me atendeu com muita tranquilidade, mas, rapidamente me indicou um jovem médico, Josué (que deverá encontrar com Papa Francisco em um encontro com 2.000 jovens de todo mundo, em Assis, Itália, pela mobilização Economia de Francisco e Clara), para o projeto ganhar consistência. Lembro que estranhei muito a confiança tão aberta a partir de uma conversa inicial. Ali começava um aprendizado sobre o jeito aberto e acolhedor de Guilherme Boulos.

Tempos depois, conversando com Edna Matos, coordenadora de um dos movimentos mais antigos de luta pela moradia popular da cidade de São Paulo – o Povo em Ação –, soube de uma ação da prefeitura – era governo Haddad –, que poderia colocar em risco a sede do movimento no extremo sul da cidade. Liguei para Boulos e ele sugeriu uma conversa na casa dele, também na região sul. Na mesma hora, fomos até ele. Mais uma vez, a surpresa. Ele ouviu a história e fez uma ligação para um alto cargo do governo Haddad. Falou, argumentou e em poucos minutos, conseguiu organizar uma reunião de pacificação da situação. Pode parecer algo natural. Mas, Boulos já era o principal líder de movimento sociais do Brasil. Era o comandante do já conhecido MTST. E estava auxiliando um outro movimento de luta por moradia. Não sei se conhecem, mas a região sul da cidade de São Paulo possui cinco movimentos de luta pela moradia. Não se fundem porque suas histórias e sua base são distintas. Um movimento luta por casas para seus associados, algo mais que legítimo e é isso que as famílias vinculadas a um determinado movimento esperam. Mas, Boulos, nem pensou duas vezes: ajudou em minutos o que poderia ser compreendido por outro líder menos preparado como sendo seus adversários.

Guilherme Boulos é isso: uma liderança emergente firme, com boa formação, fala tranquila, mas extremamente generoso e, por este motivo, um agregador.

Durante as mobilizações de 2016 e 2017 que acabariam redundando na maior greve geral que este país já viu (em abril de 2017), acompanhei uma grande concentração de sindicatos e movimentos sociais em Brasília. Era um dos atos de enfrentamento das pautas de guerra do governo Temer. Naquele dia, ligava para conversar com dirigentes sindicais que estavam por lá, no meio da manifestação. Uma das dirigentes, uma carioca que respeito muito e que lidera um sindicato nacional de servidores públicos, disse que havia vários carros de som que pareciam se movimentar em sentidos opostos e que precisavam de uma liderança que fosse respeitada por todos sindicatos, movimentos e centrais sindicais. De repente, ela cita: “o único que pode nos unificar agora é o Guilherme Boulos”.  Boulos unifica o campo progressista.

Há, é verdade, os que, desavisados, querem transfigurar o que ele é. Já li ataques de que Boulos seria demasiadamente “petista” ou que é “liberal”. Nada mais exótico. Boulos veio do PCB, partido ao qual foi vinculado na adolescência. Foi da União da Juventude Comunista aos 15 anos. Hoje, é do PSOL. Alguém pode criticar suas propostas políticas, mas afirmar que é liberal é brigar com fatos e com a sua história. Lula, é verdade, já fez alguns convites para que Boulos ingresse no PT.

Aliás, sou testemunha de conversas entre os dois: uma conversa entre pessoas que se respeitam. Ouvi uma conversa de Boulos com Lula quando se apressou o julgamento de Lula, em segunda instância, naquele início de 2018, que acabaria gerando a prisão de Lula e na sua candidatura abortada. Eu e Boulos tomávamos um café perto da avenida Paulista e, ao sair a notícia, Boulos sacou o celular e fez a ligação a Lula para expressar sua solidariedade. Esta gentileza é rara, sejamos sinceros, entre dirigentes de esquerda.

Boulos é formado em filosofia, mas fez especialização e defendeu seu mestrado em psicologia clínica e psiquiatria. Foi professor da Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Um dos debates mais interessantes que assisti nos últimos tempos foi um, cujo tema era “A luta que cura: função terapêutica dos movimentos sociais”, na livraria Tapera Taperá, no centro de São Paulo. Falaram, Boulos, Tales Ab Sader e Maria Rita Kehl. Tão lotado que tive que assistir o evento através de um telão montado numa sala ao lado da livraria.

Boulos é filho de dois médicos infectologistas. Seu pai é professor de medicina na USP.

Por tudo o que presenciei nesses últimos 6 ou 7 anos em que tive contato mais próximo com Guilherme Boulos, tenho certeza de que se trata da mais importante liderança de nova geração da esquerda brasileira. Uma liderança que alia formação ampla com capacidade de liderar e aglutinar pela franqueza, generosidade e acolhida. Um líder diferente dos que nos acostumamos a acompanhar neste campo ideológico, sempre com garras afiadas e jeito meio abrutalhado de ser. Boulos alia o que tem de melhor das lutas pelos direitos e democracia do século passado com o que há de mais instigante neste século acelerado e inovador que estamos vivendo.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.