Farei um fio sobre o fim da Lava Jato e seus “super heróis” fabricados num diminuto momento histórico do país. Vai sem deixar saudades.

Por Rudá Ricci

1) A Operação Lava Jato tem início com investigações contra doleiros, de 2009 a 2013. Mas, a partir de 2014, ano da reeleição de Dilma Rousseff (e de embate crescente com Aécio Neves), o Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba criou uma força-tarefa para atuar nesta frente

2) A força-tarefa do MPF inicialmente envolveu os procuradores Deltan Dallagnol, Carlos Fernando Lima, Roberson Henrique Pozzobon, entre outros. Em 2015, ganham a companhia de um grupo de trabalho atuando junto à Procuradoria-Geral da República em Brasília

3) A Lava Jato, a partir de 2014, se alinha à ofensiva do PSDB para destituir Dilma Rousseff. Ofensiva que vai sendo paulatinamente transferida para lideranças mais extremistas e que pregavam a volta do regime militar. A Lava Jato se situa nesta transição de direita

4) Hoje, sabemos como as orientações de Sérgio Moro chegavam aos ouvidos de jovens promotores que aparentemente lideravam esta Operação. E sabemos dos vínculos com órgãos de segurança dos EUA.

5) Fomos informados pelo The Intercept de como Sérgio Moro monitorava e definia cada passo da Operação Lava Jato, instruindo uma das partes na contenda que se iniciava na justiça brasileira.

6) Lembremos o caso da estranha fundação que se tentou criar para financiar ações dos lavajatistas. A Petrobras firmou acordo com autoridades dos EUA para o pagamento de valores devidos acionistas das empresas que foram lesados ​​com os desvios apurados na Lava-Jato.

7) O acordo previa que 20% da multa paga pela Petrobras ficaria nos Estados Unidos e os outros 80% ficariam ao Brasil – correspondentes a R $ 2,5 bilhões. Rapidamente, a 13ª Vara Federal de Curitiba, que conduzia os processos da Lava-Jato, firmou um acordo da Petrobras com o MP

8) Este acordo entre MP e Petrobrás determinava que metade do valor destinado ao Brasil, cerca de R $ 1,25 bilhão, seria aplicada em um fundo patrimonial gerido por uma fundação independente, que distribuiria os adequados para projetos de combate à corrupção

9) A farra com os recursos da Petrobrás foi logo suspenso. Em novembro de 2018, O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar para suspender o acordo firmado. Passou a ser alvo de ataques diários por parte dos fanáticos extremistas

10) Logo surgiram outras investidas de lavajatistas para fazer patrimônio às custas da Operação. The Intercept revelou que Deltan Dallagnol foi pago para dar uma palestra para uma empresa investigada por corrupção pela Lava Jato: recebeu R$ 33 mil da Neoway

11) Segundo The Intercept, “Deltan também aproximou a Neoway de outros procuradores com a intenção de comprar produtos para uso da Lava Jato. Ele chegou a gravar um vídeo para a empresa, enaltecendo o uso de produtos de tecnologia em investigações”

12) Um dos resultados da Operação Lava Jato mais significativos foi o desmantelamento de setores industriais inteiros, despertando a dúvida sobre a relação da Operação com interesses de empresas estrangeiras

13) Artigo publicado na edição de agosto do ano passado no Jornal dos Economistas, do Conselho Regional dos Economistas do Rio de Janeiro, sugere um baque de 2% a 2,5% de contribuição da Operação na queda do PIB de 2015 e 2016.

14) Os setores mais atingidos pela ofensiva da Lava Jato foram: metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada (perdas totalizariam R$ 146 bilhões).

15) Então, temos uma sequência de ofensiva ideológica de direita e extrema-direita, busca de benefícios pessoais, canalização de multas para financiamento de aparelhos de lavajatistas, aproximação de instâncias governamentais dos EUA, quebra de setores pujantes da economia.

16) Trata-se de uma Operação que merece, ao menos, todos cuidados e dúvidas sobre sua real intenção e resultado. Não se trata de pouca coisa. As ilações que reproduzi nesse fio sugerem indícios de ataque à nossa soberania nacional. Merecia ser investigado.

17) Então, por aí, temos uma hipótese explicativa da ânsia de poder pessoal por parte de Sérgio Moro. A sua imensa popularidade, alimentada da superexposição como juiz-herói do combate à corrupção, abriu a avenida para se candidatar à Presidência da República

18) Contudo, esta geração entende pouco das engrenagens da política. Confiam muito na superexposição das celebridades, esquecendo que todas são efêmeras. Sem enraizamento social, sem estruturas organizativas que cristalizam seu poder, a celebridade nunca se torna líder.

19) Sérgio Moro é a tradução da história da Lava Jato e do fogo de palha da espetacularização da celebridade política. Surgiu como um vulcão e some como um enxame de abelhas que não deixa sinais de seu futuro.

20) Vazaram, agora, que a família de Moro tenta convencê-lo a deixar o Brasil e a se afastar da política.

21) O “super herói” que se tornou mais popular que Lula, arriou. Arriou com a Lava Jato, que vaza por todos os lados. Moro deixou claro seus vínculos com a extrema-direita ao se tornar ministro de destaque no governo Bolsonaro, antes da conversão de Jair para o estilo Centrão.

22) Do ponto de vista político, a saída de cena de Moro e lavajatismos sugere a polarização ideológica entre Jair Bolsonaro e o lulismo. O que revela um traço surpreendente da resiliência do PT e Lula: tudo muda, mais o PT é a certeza em toda disputa eleitoral (FIM)