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Por Wallace Armani

A construção do conceito de empreendedorismo como narrativa para a mitificação do trabalhador/herói e como instrumento de precarização do trabalho para legitimar os interesses setoriais de grupos hegemônicos.

O empreendedorismo tem sido amplamente utilizado pela iniciativa privada, pelas organizações públicas, pelas escolas e universidades, pelas igrejas e pela mídia. Esse termo passou a ser usado no Brasil em 1990, no governo do então presidente Fernando Collor de Mello, devido à abertura para os mercados internacionais e à implementação de uma plataforma neoliberal. Nos últimos 30 anos, esse termo tem sido amplamente difundido, o que mostra que ele não pode ser tratado apenas como “modismo”, e sim, como um fenômeno que merece atenção da sociedade.

O empreendedorismo já se tornou palavra de nosso dia a dia e começa a ficar difícil não percebermos a relevância que tem se dado a isso. As empresas incentivam os funcionários, considerados atualmente como “colaboradores”, a se tornarem intraempreendedores, que são empreendedores que atuam dentro delas na busca de melhores resultados tanto para si mesmos quanto para elas. A mídia tradicional e as redes sociais virtuais nos mostram diariamente o quão importante para a nossa vida é se nos tornarmos empreendedores. O governo incentiva o “espírito empreendedor” através de programas de fomento e captação de recursos. As escolas e as universidades já possuem disciplinas sobre empreendedorismo.

São utilizados dois conceitos para agrupar os empreendedores, os empreendedores por “necessidade” e os por “oportunidade”. Empreendedores por necessidade investem tempo e dinheiro para desenvolver novos negócios. Nesses casos, grande parte deles sem possuir conhecimentos mínimos em gestão. Empreendedores por oportunidade estudam novos modelos de negócios e como implementá-los, por já serem conhecedores de ferramentas de gestão.

O tema se torna necessário a um olhar mais atento e a uma investigação crítica no que tange ao fato de se construir uma narrativa que orienta os empreendedores a se tornarem verdadeiros heróis contemporâneos, pois assumem os riscos, se embrenham em novos negócios, precisam ser criativos e estarem atentos a todas as oportunidades que possam encontrar. Esses empreendedores passam a ver a si mesmos como figuras quase sobre humanas e que nesse processo, realizam múltiplas tarefas, são postos à prova a todo instante, buscam novas formas de obter ganhos escalonáveis e são guiados por meio do “mito do sucesso” que se esconde atrás do esforço e do trabalho duro. Metaforicamente, os empreendedores se comportam como Atlas e Sísifo ao mesmo tempo.

Por outro lado, o governo e o mercado, se alinham para manter a narrativa de que o empreendedorismo deve ser estimulado através de programas para liberação de crédito, programas para o ensino sobre empreendedorismo e o incentivo à competitividade. Nesse último caso, é de notar um amplo discurso para a promoção de atividades individuais, por parte dos empreendedores, que podem ser estimulados ao individualismo e ao egoísmo. O governo e a iniciativa privada nutrem a completa independência do trabalhador, que se vê na figura do empreendedor/herói, e esse alimenta seus sonhos e anseios, seguindo assim a uma cartilha estrategicamente elaborada pelos detentores do capital e das relações de poder na sociedade. Passamos a viver dentro de um contexto em que todos podem empreender e aqueles que não se esforçam o suficiente, não colhem o fruto do sucesso. Dessa forma, como empreendedores, devemos trabalhar todos os dias, em todos os turnos e sempre com um sorriso no rosto.

O principal teórico do empreendedorismo no século XX foi o economista austríaco Joseph Schumpeter, que além de estabelecer uma relação entre esse termo e a inovação, continua a ser ainda fonte de referência teórica no que concerne ao tema. Para ele, “o capitalismo deveria ser estudado sob a ótica da produtividade e do crescimento, sendo a máxima expressão da inovação, luta humana pura/simples destruição – tudo isso ao mesmo tempo. ” A ênfase da visão do empreendedor para Schumpeter é a inovação, pois ele aponta o empreendedor como aquele que enxerga oportunidades, principalmente no que tange aos aspectos tecnológicos. Usando essa linha de raciocínio, podemos destacar Henry Ford e Graham Bell.

Os sociólogos portugueses Adriano Campos e José Soeiro escreveram o livro A Falácia do Empreendedorismo (2016), em que questionam os métodos e abordagens utilizadas pelo pensamento neoliberal para impulsionar o empreendedorismo em Portugal. Para o sociólogo e professor da Unicamp Ricardo Antunes, “empreendedorismo é um mito que cresce pelo desemprego, o enfraquecimento das políticas sociais e novas tecnologias. ” Ainda para esse autor,

o empreendedorismo é uma forma mistificadora que imagina eliminar o desemprego, em uma sociedade que é incapaz de preservar trabalho digno com direitos. E como essas novas modalidades de trabalho são deprimentes, a mistificação torna-se o remédio que só fará alimentar a doença.

O empreendedorismo tem sido naturalizado como um discurso e como elemento de propaganda para flexibilizar os direitos trabalhistas, incentivar a informalização e transferir a responsabilidade do Estado para o cidadão. Seria o empreendedorismo um instrumento para o combate ao desemprego? O empreendedorismo contribui para o aquecimento da economia? Esse fenômeno da era pós-industrial pode ser interpretado como uma forma de retirar do Estado o papel de ente responsável pela empregabilidade? Como o empresariado se beneficia em incentivar essa iniciativa? O que de fato está por trás desse discurso? O espírito empreendedor pode ser entendido como ideologia?

Entre os anos de 1999 e 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, apresentou o Programa Brasil Empreendedor, como sendo um meio de se combater o desemprego e de injetar dinheiro na economia, através da liberação de crédito para micros, pequenos e médios empresários. Estiveram envolvidos o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Nordeste e o Banco do Amazonas. De acordo com o governo, foram liberados um total de R$ 8 bilhões de reais em linhas de créditos. De acordo com Fernando Henrique,

…estou absolutamente convencido da viabilidade do Brasil, porque tenho confiança no Brasil, nos brasileiros, em nós todos. É por isso mesmo que vamos nos empenhar com mais energia ainda pelos nossos objetivos de equilíbrio fiscal, de reformas, para que possamos ter mais acesso a crédito, juros mais baratos. E aí vem o resultado: mais crescimento econômico e mais emprego. Vamos medir o êxito de todos nós pelas nossas taxas de crescimento sustentado e por mais capacidade de oferecer empregos. E ninguém vai crescer se não tiver a pequena e a microempresa a seu lado. Ninguém vai dar mais emprego se não houver, realmente, um programa sólido que apoie o crescimento da micro e pequena empresa.

Percebo o empreendedorismo como um fenômeno mercadológico contemporâneo que tem como premissa, a construção de uma narrativa que se pauta na utilização de um discurso motivador, que transfere ao trabalhador a responsabilidade pela sua produção e autonomia. Esse discurso é marcado pelo uso da criatividade e da não dependência do Estado ou da iniciativa privada para que ele, o trabalhador/empreendedor, buscando os meios necessários, possa por si próprio transformar a sua vida e a da sociedade, por meio da implementação de novos modelos de negócios.

Wallace Armani, Professor de idiomas e Analista Social do Instituto Cultiva.

REFERÊNCIAS

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