FIO publicado no Twitter, por Ruda Ricci

Começo com os antecedentes: a estrutura política montada por Lula.

Lula atualizou, em especial, a partir de 2005, o modelo de fomento ao desenvolvimento do mercado interno da agenda rooseveltiana. Resumidamente, diria que se trata de uma estrutura com três vértices: Estado orientador + criação de mercado interno + financiamento às empresas.

2) Este modelo se revelou absolutamente acertado. De um lado, criou as bases para a orientação ao empresariado nacional, vai um cardápio de investimentos (o PAC) e financiamento via BNDES (a capitalização do banco o transformou no 3o maior banco de fomento do mundo).

3) O BNDES foi um motor importante para a transformação do Brasil numa das grandes potências econômicas do planeta. Mais adiante, gerou a política dos “campeões setoriais”, empregada pelos asiáticos. Deu certo num ou outro caso e deu errado em outros.

4) Na outra ponta, gerou um potente mercado interno via aumento real do salário-mínimo (fator que correspondeu, segundo a FGV RJ, à 70% do aumento de renda média dos trabalhadores assalariados do país no período), Bolsa Família e crédito subsidiado.

5) Até aí, tudo bem, mas, para tanto, é preciso muito dinheiro nas mãos da União. FHC já havia criado uma inflexão na onda municipalista. Mas, Lula completou: 70% dos investimentos públicos se concentraram nas mãos da União, asfixiando os municípios.

6) A intenção foi nacionalizar os programas sociais e de infraestrutura, espalhando obras e programas por todo país. Um ministro apresentou o projeto num final de tarde, em seu gabinete, quando conversávamos sobre concentração orçamentária. Outra estratégia que atingiu o alvo.

7) Tal concentração de investimentos públicos provocou uma mudança na lógica das prefeituras: técnicos formuladores foram substituídos por assessores que cadastravam projetos e demandas nos sites das agências estatais federais. Mais: criou o Príncipe da República.

8) O Príncipe da República brasileira passou a ser o deputado federal. Foi ele que passou a mediar o caminho das pedras para prefeitos conquistarem casas populares, praças, transporte escolar, patrulhas mecanizadas, enfim, um cardápio gigantesco que lhes deu popularidade.

9) Lula já sabia o que estava fazendo quando transferiu a gestão do Fome Zero (reestruturado e renomeado) para os prefeitos. Sua decisão gerou a primeira defecção importante do seu governo, com as saídas de Frei Betto e Ivo Poletto.

10) Pois bem, o poder dos parlamentos, já insuflado em vários artigos da Constituição Federal, ganhou uma musculatura ao estilo fisioculturista. Deputados federais ampliaram suas bases. Ora, nascia a partir daí, os Severinos Cavalcantis e Eduardos Cunha.

11) De candidatos do Baixo Clero, aquela porção da Câmara dos Deputados que sonha com um lugar ao sol, os presidentes da “câmara baixa” passaram a criar um bloco poderoso, que atraiu a atenção do alto empresariado brasileiro, não muito afeto à lógica democrática.

12) Dilma herdou esta lógica política: alianças amplas, Estado potente e deputados federais famintos. Somente um habilidoso político consegue lidar com tal malabarismo.

13) Contudo, este nunca foi o caso de Dilma Rousseff. Trata-se de uma tecnocrata forjada em ações de planejamento estatal. Foi Secretária Municipal da Fazenda de Porto Alegre (1986), diretora da Câmara Municipal de POA (89), presidente da Fundação de Economia e Estatística (91) .

14) Em várias dessas passagens, servidores públicos criticaram seu estilo autocrático. A inabilidade política ficou mais evidente a partir dos primeiros tropeços de sua gestão como Presidente. Foi uma sucessão de movimentos erráticos.

15) Seu primeiro ano foi de certa aproximação com tucanos e escuta atenta às acusações que a grande imprensa fazia aos seus ministros. Em três meses, demitiu 4 ministros: Palocci, Alfredo Nascimento, Nelson Jobim e Wagner Rossi.

16) Em agosto de 2011, o jornal Valor Econômico publicava matéria sobre a aproximação de Dilma Rousseff à Fernando Henrique Cardoso, nesses termos: “trata-se de uma operação política bem calculada (…) subestimada pelos tucanos e mal vista pelo PT lulista (…) ”

17) Para quem acompanhou os bastidores da política naquele período, sabe que o mal-estar em parte da cúpula petista era considerável. Acontece que, no ano seguinte, Dilma deu uma guinada à esquerda e começou a organizar a Comissão da Verdade e esboçar um tranco nos juros de CEF e BB

18) Logo adiante, liderou ofensiva sobre as concessionárias de energia. Em setembro de 2012, anunciou que no ano seguinte as contas de luz dos consumidores residenciais e comerciais cairiam 16% e as das indústrias cairiam 28%

19) E, então, veio 2013. As manifestações de junho trouxeram uma realidade que o PT não estava monitorando. Algo que Márcio Pochmann está alertando nos últimos meses já se pronunciava: o Brasil da fundação do PT não existia mais

20) O governo Dilma perdeu o eixo. Primeiro, convocou lideranças de movimentos sociais para conversar no Palácio do Planalto. Ouviu de gente como Preto Zezé (CUFA) que eles não tinham nada com as manifestações e que ela deveria tê-los chamado muito antes. Aqui, uma pausa

21) Bispos da CNBB reclamavam, neste período, que a presidente Dilma não os atendia. Havia desconforto entre lideranças sindicais. O mesmo para lideranças dos movimentos sociais mais vigorosos do país. Mesmo entre seus ministros, havia muito desconforto.

22) Muitos ministros relataram para mim que o estilo agressivo e irascível criava situações absolutamente desnecessárias, aproximando-se de humilhações. Esta prática é relatada, inclusive, durante a sua campanha ao senado, em Minas Gerais, nas eleições de 2018.

23) Contudo, idiossincrasias não definem um governo. Muito menos, sua queda. Mas, é importante registrar que ela já começava a se isolar. O ministro Gilberto Carvalho, muito próximo de Lula, tentou avançar numa proposta de democratização do processo de tomada de decisão

24) Carvalho formulou 5 pactos e um plebiscito para a constituinte da reforma política. A proposta foi apresentada a 27 governadores e 26 prefeitos de capitais. Versava sobre responsabilidade fiscal e controle da inflação, saúde, educação, transporte e o plebiscito

25) Sem interlocução com os manifestantes de junho, o governo Dilma daria nova guinada a partir de outubro. Numa fala do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o governo alterava o tom. Em junho, já havia solicitado à PF uma análise das manifestações em SP e “atos de vandalismo”

26) De outubro a dezembro, começou o cerco às lideranças de junho de 2013. Num dos atos mais estranhos, começa o treinamento de policiais brasileiros nos EUA a partir de um convênio entre a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (SESGE) e a embaixada dos EUA

27) Folha de São Paulo e o portal IHU Unisinos publicam matéria divulgando que a empresa americana Academi, que antes se chamava Blackwater, treinava policiais militares e agentes da Polícia Federal para ações antiterrorismo na Copa.

28) Segundo matéria da IHU Unisinos: “A Blackwater ficou conhecida por agir como um exército terceirizado dos Estados Unidos, com mercenários atuando nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Ex-funcionários da Blackwater são acusados de terem matado 17 civis iraquianos, em 2007.”

29) O que procurei demonstrar é que Lula forjou uma lógica de gestão profundamente complexa, atualizando o modelo rooseveltiano de fomento ao desenvolvimento interno (sendo que Roosevelt foi muito mais impositivo que Lula) que se articulou ao presidencialismo de coalizão.

30) Somente alguém muito hábil teria como gerir uma rede tão complexa de relações, fóruns e negociações de interesse. A montagem dos seus ministérios, quase sempre bifrontal, alimentava tensões em que o líder maior se apresentava como tercius nas contendas.

31) Procurei demonstrar que Dilma Rousseff não tinha este perfil. Seu perfil foi sempre de tecnocrata, de ação nas áreas técnicas, não nas de estratégia ou arranjos políticos. O estilo autocrático, quase selvagem, era pautado por uma forma extremamente agressiva.

32) A resultante foi que, após a posse como Presidente da República, passou a mudar o rumo a cada ano: daquela que ouvia a oposição e imprensa e demitia ministro como se troca de roupa para a que pende à esquerda e, logo no outro ano, pender muito à direita. Chegamos a 2014.

33) Aqui, inicio os dois anos da tragédia anunciada. Se seguirmos o Datafolha, a avaliação positiva do governo de Dilma, que havia despencado de 65% para 30% no período das manifestações de 2013, recuperou no final do ano, chegando a 41%.

34) O gráfico que ilustra esta nota ajuda a perceber que o problema se manteria ao longo de 2014, com aprovação oscilando muito, mas despencaria nos primeiros três meses de 2015. Vou analisar mais de perto.

35) 2014 foi um ano importante para a política nacional. Foi o ano em que sediamos a Copa Mundial de Futebol. O primeiro semestre foi todo dedicado a criar as bases para forjar um país “paz e amor”. Leis draconianas, Manual de Garantia da Lei e da Ordem, padrão FIFA de lucros…

36) E muita paulada de PMs sobre manifestantes. Os protestos contra a forma como se impôs a lógica FIFA no Brasil foi organizada por comitês da Copa em 12 cidades-sede dos jogos. Aqui em BH, o nome do comitê foi mais nítido: Comitê Popular dos Atingidos pela Copa.

37) Se você olhar atentamente a aprovação do governo ao longo de 2013 e 2014, perceberá que não há uma tendência de queda, mas de oscilação num patamar mais baixo do que ocorria anteriormente.

38) Então, a tese que 2013 foi uma manipulação da direita não se sustenta. Se tivesse sido, seria muito frágil porque não derrubou o governo, embora tenha abalado a confiança nos patamares Lula de aprovação. Lembremos que Dilma venceu as eleições de 2014.

39) O que fez Dilma Rousseff conquistar a reeleição? Uma potente capacidade técnica de agir nas redes sociais. Este é outro mito que gente desinformada do próprio campo progressista vem alimentando: a que a esquerda não sabe atuar nas redes sociais. Uma bobagem sem tamanho.

40) Com base em um farto arsenal de dados quantitativos, qualitativos e leitura de algoritmos, destruíram a candidatura de Marina Silva e, já no segundo turno, a de Aécio Neves. Comentei este fenômeno na Folha de São Paulo: folha.uol.com.br

41) A campanha de 2014 foi um primor de estratégia, habilidade política, capacidade de leitura dos dados e construção de consensos. A vitória foi tão desconcertante que provocou a reação – que sempre existe em política – nas mesmas proporções.

42) Havia uma gritaria sobre a retomada da inflação. O IPCA, que mede a inflação oficial, fechou o ano de 2014 com uma taxa de 6,41%. O índice estava abaixo do teto da meta de inflação do governo federal (6,5%), mas maior que a de 2013 (5,91%).

43) Em meados de 2014, fiz análise de conjuntura para a CNBB, em Brasília. Neste dia, movimentos sociais de destaque, como MST, Marcha das Margaridas, além de organizações como CIMI, pastorais, as duas frentes pela reforma política estavam presentes.

44) Fiz uma análise da conjuntura com tom moderado e fui surpreendido por falas de todas organizações muito mais ácidas à performance de Dilma Rousseff. Todos diziam que Dilma escolhia o caminho da direita, que não apoiariam a eleição de Aécio, mas que avaliavam o estrago.

45) Contudo, Dilma se reelege e dá um “chega pra lá” na coordenação de campanha. Rejeita 5 indicações de ministros feita por Lula. E desarticula um acerto envolvendo Rede TV, BNDES e Folha de São Paulo que daria projeção à Franklin Martins. Dilma decidiu fazer carreira solo.

46) Dilma toma posse em 2015 e comete uma das maiores derrapagens políticas que presenciei na minha vida. Durante toda a campanha, tinha afirmado que em momento de crise, a escolha do PT era ficar com os pobres. Era uma diferenciação nítida em relação ao pacto de austeridade.

47) Em 2015, o IPCA continuou crescendo e Dilma arriou. Cedeu ao discurso do mercado. Fez algo parecido com sua prática política em 2011: aproximou-se perigosamente de adversários e inimigos.

48) A adoção de medidas de austeridade que fizeram a alegria de especuladores e o desespero de pobres (com taxas de juros elevadas, acabava o crédito popular e com desvalorização do real, destruía seu poder de compra) cai como um terremoto sobre as hostes petistas. Dilma capitulava e se fragilizava junto aos eleitores.

49) O PT e Lula se desesperaram no período. Tive uma conversa com um dos petistas mais próximos de Lula em meados de 2015. Percebi a gravidade da situação. Neste momento, Temer articulou uma reunião em sua residência oficial com mais de uma dezena de lideranças partidárias.

50) Nesta reunião na residência de Temer, estava um representante do PT RS, um deputado nitidamente de esquerda, ex-dirigente da CUT. Temer foi claro: governaria com os partidos presentes. Em plena gestão Dilma. O governo estava totalmente isolado. Perderia a base em cascata.

51) A política levyana que adotou foi um desastre. Levy, homem do Bradesco formado em Chicago, tinha sido secretário do Tesouro Nacional e assumiu o Ministério da Fazenda de Dilma Rousseff. Mais tarde, iria para o governo Bolsonaro.

52) Dilma Rousseff já não tinha o apoio dos movimentos sociais do país. E também tinha perdido apoios importantes na esquerda partidária, incluindo o PT. Lula se afastava, irritado, das decisões. Não somente Lula, mas a cúpula histórica do PT, como Zé Dirceu.

53) Aécio Neves, de aliado preferencial de Lula durante suas gestões – há deputados do PT que lamentam serem censurados pelo governo federal toda vez que criticavam o governador mineiro – passou a ser adversário e, depois de 2014, inimigo. Escrevi um livro a respeito.

54) Chegou a hora de avaliarmos com rigor e a partir de vários ângulos, sem qualquer viés de convicção. Somente assim, poderemos evitar liberalismos na esquerda e retorno aos erros crassos, quase infantis, que nos levaram ao atual estágio.