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Princípios e metodologias

O grande educador e filósofo Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira, acreditava no poder de transformador social que homens e mulheres podem exercer, com base em uma educação libertadora e ideológica. Defensor e propagador da Educação Popular, Freire valorizava o senso comum e a curiosidade daqueles que se questionam e buscam o conhecimento. Em seu livro Pedagogia da Autonomia, o educador descreve a educação como um processo permanente e afirma “não foi a educação que fez mulheres e homens educáveis, mas a consciência de sua inconclusão é que gerou sua educabilidade” -(FREIRE, 1996, p.58.)” -. Paulo Freire ensina que a educação formal e a educação informal devem encontrar o caminho para a formação integral do indivíduo e da coletividade. A educação assume, portanto, um viés de mão dupla, ou seja, ensinar inexiste sem aprender e vice-versa.

É neste contexto e inspirada na Pedagogia Freireana que se articula a Pedagogia do Instituto Cultiva. Com a proposta de estimular uma educação humanizada e copartiticipativa, em que o outro tem voz no processo de ensino e aprendizagem, há 18 anos o Cultiva desenvolve projetos nas áreas de Gestão Pública, Sindical e Educacional, presentes em vários estados do Brasil. A nossa grande missão é instigar, articular e fortalecer o capital social para o avanço da autonomia, da cogestão ou autogestão das populações em seus territórios.

A Formação continuada é a educação para a transformação. O foco do Instituto Cultiva é a educação para a cidadania e a participação social, por meio de programas para formação de professores, como citado acima, e também para o fortalecimento da relação família-escola, elaboração de sistema de avaliação, de matriz curricular municipal e estadual e formação continuada. São alguns dos temas de nossos cursos presenciais e também EaD, voltados para adolescentes e adultos, conselheiros e lideranças sociais.

A Gestão em Rede é um dos nossos instrumentos de formação também propostos para órgãos governamentais. Um trabalho coletivo que leva o poder público para mais próximo do cidadão. O objetivo é estreitar o laço entre lideranças políticas e a população. A nossa proposta para a Consultoria Sindical, da formação à análise de conjuntura, busca instigar sindicalistas a pensar na sociedade, em ações solidárias, no estado e nas políticas nacionais. As pesquisas sobre a base sindical apresentam uma série histórica com índices de avaliação da ação do estado em relação às condições de trabalho.

Nosso foco é o empoderamento de lideranças sociais a partir da criação de estruturas de controle social de caráter territorial (bairros, comunidades). A nossa intenção é formarmos redes de controle social sobre políticas públicas de acordo com o território de moradia dos cidadãos. Dessa forma, ajudamos a criar pontes, pois, em certo momento, a pesquisa, o desenvolvimento territorial e as políticas públicas se encontram e juntas fomentam ações sociais integradas.

Como trabalhamos?

Trabalhamos fundamentos em duas referências: o território e a educação popular (focada no empoderamento, como já descrito). O território, para nós, é compreendido como espaço de relações humanas definido pela identidade cultural, onde são estabelecidos conflitos de interesse, disputas e dinâmicas sociais que cristalizam valores e relações sociais e políticas entre os sujeitos.

O território é dinâmico e compreendido antropologicamente

O conceito de cultura é definido para nós pela etimologia da palavra, ou seja, o radical latino colo.Em uma tradução livre, significaria “ocupar um espaço com a experiência coletiva”.  Esse radical deu origem a dois particípios: cultus (de onde vem culto e cultuar a experiência passada de uma pessoa que contribuiu para a experiência coletiva) e culturus (que projeta a experiência coletiva para o futuro, criando uma lógica, uma visão de mundo).

Na prática, os dois conceitos – cultura e território – se cruzam. Os indivíduos criam significados coletivos sobre as experiências comuns, produzem valores e crenças compartilhadas, se percebem próximos (ou iguais) e se distinguem de outras identidades territoriais. Ao mesmo tempo, as experiências individuais e grupais, as maneiras como o poder (econômico e até mesmo simbólico) é distribuído, criam divisões ou dinâmicas sociais e políticas próprias.

Os territórios, portanto, não são estáticos ou estabilizados. São espaços com forte dinamismo social, locus de embates e de disputas políticas. Os projetos do Instituto Cultiva se inscrevem como iniciativas que procuram estruturar fóruns de gestão participativa a partir dos territórios. Uma gestão territorial sem corporativismo ou bairrismo, mas que promove articulações ou estruturas em rede para que cada unidade territorial participe de instâncias agregadoras de deliberação.

Mudança de estrutura de tomada de decisão pública

Do ponto de vista das estruturas estatais brasileiras de formulação e de gestão de políticas públicas, significa uma clara ruptura histórica. Com efeito, as estruturas estatais brasileiras, de natureza burocrática (burot = escritório + cracia= poder) se configuram em organização hierárquica e especializada, na qual a cultura comunitária ou os processos coletivos de tomada de decisão são rejeitados. Ao contrário, como se percebe na ilustração abaixo, as estruturas burocráticas se apoiam na abstrata “Razão de Estado”, definida no exterior da vida social, a partir dos escaninhos tecnocráticos que suspeitam do caráter essencialmente emocional das ações da sociedade civil.

A lógica social, em especial aquela que se revela potente neste início de século XXI, ao contrário, se configura como uma rede. A ilustração apresentada a seguir indica uma relação horizontalizada, quase sempre iniciada em pequenos agrupamentos sociais, mas que estabelecem múltiplas relações com outros grupos, formando uma teia de acordos tópicos.  Na prática, a formação da teia de relações sociais se dá por adesão, por identificação e por confiança com quem se dialoga, não por respeito à lógica organizacional ou ao comando central.

 

Em outras palavras, as relações são fluidas, os acordos são renovados constantemente, as informações e opiniões se refazem a cada grande debate ou situação inesperada.

Em suma:

  • As redes sociais criam fluxos de informações crescentes, definidas por relações afetivas, de confiança;
  • As reivindicações são fluidas, se alteram no contato com outros e são fortemente personalizadas;
  • As redes sociais se adequam mais nitidamente à lógica cultural dos jovens, refratária às organizações, voz de comando e rotinas (Geração Y e demais).

Alguns autores sugerem estruturas incompletas (“structural holes”) ou manifestações intermitentes, como a sugerida por Augusto de Franco, a seguir:

 

Os comportamentos políticos e as estruturas associativas típicas do século XX comparadas as doo século XXI podem se assim  identificados:

 

 

Nesta dimensão, o empoderamento, para nós do Instituto Cultiva, significa gerar autonomia dos indivíduos e grupos sociais. Não se trata, portanto, de um movimento simples. Autonomia significa autogoverno (auto + norma), o que não se confunde com liberdade ou pulsão individual plena. Ao contrário, sugere que o indivíduo deve aprender a se autogovernar, olhando para si (Paulo Freire denominava esse movimento de ad-mirar, ou seja, olhar para si, de fora) e identificando os limites de sua ação para construir coletivamente, para definir ações e projetos solidários.

Como  todos esses conceitos se relacionam com nosso projeto educativo?

Como vimos, os projetos do Instituto Cultiva buscam estruturar vínculos sociais e institucionais de ação coletiva para formular e gerenciar políticas públicas, de caráter territorial.  Também sugerimos que os territórios se articulem em rede, procurando superar o isolamento geográfico ou o localismo.

Estamos, portanto, sugerindo estruturas de cogestão ou autogestão em que as estruturas públicas se tornam porosas às estruturas que compõem as redes territoriais de participação dos cidadãos.

Tal proposição sugere um forte processo de formação política e técnica, de conhecimento da legislação, da lógica de administração, de comunicação, além do desenvolvimento de análise, interação social, elaboração de projetos, monitoramento de resultados e fiscalização.

Nesse sentido, não se trata de formação meramente técnica, pois se sustenta em um projeto social e político coletivo. Funda-se, dessa forma, em valores e em princípios definidos, críticos às estruturas de organização estatal vigentes, excludentes, formais, discriminatórias e elitizadas.

Para tanto, em todas nossas ações, desenvolvemos programas formativos, de educação social e política. Nossos programas formativos se sustentam no trabalho com informações e conhecimentos, mas que se subordinam aos valores e projetos sociais de cogestão ou autogestão da coisa pública. Adotamos, nesse caso, a sugestão crítica da hierarquia de conhecimentos, expressa na ilustração que apresentamos a seguir:

A escala apresentada tem como base o “dado”, elemento quantificável da realidade. Um conjunto de pessoas em um auditório forma um dado.

A informação é um destaque no conjunto de pessoas que responde uma dúvida ou interesse de um observador. Nesse caso, ao perguntar quantas pessoas naquele auditório possuem mais de trinta anos, a resposta gera uma informação. Entretanto, a informação gerada adota uma maneira de organizar os dados preexistentes. Imagine que o informante tenha feito um cálculo aleatório, ou que tenha feito uma amostra a partir das cadeiras da primeira fila do auditório ou que apenas tenha respondido com base em uma leve intuição. Se aquele que recebe a informação não sabe como ela foi gerada, pode ser ludibriado ou aceitar uma resposta enviesada.

Se quisermos promover autonomia dos indivíduos e dos grupos que atendemos, não basta informar. Não basta um educador ou um consultor se colocar à frente dos grupos e despejar informações. A informação ilumina uma realidade, mas pode deixar de revelar outros ângulos e possibilidades de interpretação da realidade.

Tão ou mais importante que a informação é, portanto, revelar as teorias ou possibilidades de interpretação de uma conjuntura ou fenômeno social. O conhecimento (que está por detrás da geração de uma informação) que liberta, que dá liberdade e autonomia de escolha a quem recebe uma informação.

O mesmo conhecimento que nos ajuda a compreender uma informação ou quem a elaborou, a medida em que ela se fundamenta no marxismo ou liberalismo, no budismo ou no cristianismo, por exemplo, também pode gerar diletantismo ou até imobilismo. Uma pessoa pode conhecer muitas teorias ou referenciais teóricos mas se não escolhe uma ou cria a própria, não transformará esse conhecimento em ação.

A ação social pressupõe escolha. E a escolha política se faz fundamenta em valores ou projetos. Vários autores denominam essa capacidade de inteligência (do latim inter + elegere), ou seja, capacidade de decidir frente a um dilema.

As ações formativas desenvolvidas pelo Instituto Cultiva são projetadas para instigar as escolhas dos cidadãos, auxiliando-os a identificar as escolhas dos que geram ou organizam informações, procurando ampliar o leque de possibilidades de escolhas, sempre focadas na direção da construção da autonomia individual e coletiva.