Por Rudá Ricci

A pesquisa Datafolha de hoje (14/08), indica uma importante recuperação de Bolsonaro e queda do índice de rejeição do governo. Não tenho muita confiança nos índices, mas tenho na série histórica. Pesquisas sugerem que a ajuda emergencial de 600 reais foi o fator decisivo nesta mudança de percurso.

O que faz os apoiadores de Bolsonaro festejarem pode ser um sinal amarelo para a vida de Paulo Guedes. Não por outro motivo, seu ministério vem sangrando. A “debandada” foi dos seus auxiliares ultraliberais.

Paulo Guedes decidiu fazer um movimento político e se juntou aos presidentes do Senado e Câmara de Deputados, além de representantes da elite empresarial. Decidiu chantagear sobre o possível teto de gastos que o governo estaria prestes a ultrapassar. Avalio que Paulo Guedes jogou muitas fichas na mesa, de uma vez só, diminuindo a intensidade da pressão que decidiu fazer sobre o núcleo duro do governo. Talvez, pelo exagero, tenha algum combinado anterior com Jair. Talvez, seja falta de traquejo.

O fato é que Guedes revelou a divisão no governo. Pelo que se fala nos bastidores, militares e Centrão (ou parte dele que ingressou no governo) perceberam que a onda positiva tem relação com liberação de verbas públicas, principalmente para os mais necessitados. Do outro lado, o ultraliberal Rodrigo Maia (que tentou derrubar parte da aprovação do Fundeb na Câmara de Deputados e foi derrotado), as federações empresariais de SP e RJ e a equipe de Paulo Guedes (apoiados pela Rede Globo, lembremos) quer acelerar as reformas liberais.

O dilema indica um divisor de águas comportamental, entre o dogmatismo ou o pragmatismo. O importante é perceber que Bolsonaro se claudica em relação ao bolsonarismo, o que é bom para o país. Ser governo não é o mesmo que ser parlamentar. E o capitão parece ter percebido isso. Seu ingresso no Nordeste revela que decidiu avançar sobre os territórios que lhe são desfavoráveis politicamente, demonstrando uma ousadia que não se encontra na esquerda. Se conquistar alguns percentuais por lá, desequilibra de vez a balança nas avaliações.

A mudança de rumo começou timidamente com a prisão de Queiroz e avança das investigações relativas às fake news e rachadinhas. Jair ainda resistiu. Mas, cedeu às negociações com o Centrão e com o STF. Resistiu a aceitar a ajuda emergencial de 600 reais, mas, percebeu o bônus.

Mas, com índices melhores de aprovação, percebeu a direção do vento. A biruta, reforço, foi o auxílio emergencial que aponta para a demanda popular para quem governa o 7º país em desigualdade social do planeta, mesmo sendo a 8ª economia da Terra. Jair percebeu que a terra gira.

Há apostas em Brasília que o tempo de Paulo Guedes está se esgotando. Não me parece tão simples. Sem Guedes, desmorona o apoio dos empresários e parte da grande imprensa. Sabemos como esses “amigos” plantam crises diárias quando querem. Mas, se fica com Guedes, perde a onda. Talvez, Jair tenha pedido para que Guedes se garanta no governo. Lula teria feito o mesmo com Dilma em 2010 (teria dado até fevereiro de 2010 para garantir apoios e se firmar como pré-candidata à Presidência). Contudo, este jogo tem data para acabar.

Em breve, teremos uma avalanche de famílias em desespero pela queda de renda ou perda de empregos. Devemos atingir metade da população brasileira nesta situação. Imaginem o impacto na campanha municipal de outubro. Jair tem um ou dois meses para decidir.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.