Instituto Cultiva leva programa premiado pela UNESCO a Suzano-SP

Em julho de 2020, o Projeto Prevenir a Violência: Implantação das Comunidades Educadoras no município de Suzano/SP completa um ano. Criado e desenvolvido pelo Instituto Cultiva, o programa recebeu o Prêmio Cidade da Aprendizagem da Unesco 2017, considerado como uma das 16 experiências mais exitosas do mundo no âmbito da educação pública. A conquista é o reconhecimento pelo trabalho realizado entre 2016 e 2017 nas escolas municipais de Contagem/MG em parceria com a Secretaria de Educação do município. Agora, o projeto está sendo implantado na região metropolitana de São Paulo. Mesmo com a suspensão das atividades presenciais por conta da pandemia do novo Coronavírus, conforme determinações de isolamento social, o cronograma dos trabalhos foi reorganizado e reuniões virtuais entre a equipe de coordenação da Secretaria de Educação do Município (SEM), e a consultoria do Instituto Cultiva dão continuidade às ações.

O Termo de Colaboração, firmado com a SEM de Suzano, contempla a atuação em 33 escolas do Ensino Fundamental 1. O objetivo é construir caminhos para lidar com as transformações e desafios da educação pública, tais como a queda de desempenho escolar, o aumento da violência no meio acadêmico, a evasão e infrequência por parte dos estudantes. “Nesta perspectiva, o olhar se volta tanto para a dimensão escolar quanto para a dimensão da vida da criança. Assim, para prevenir a violência escolar, o projeto propõe a construção de ações que articulem redes para o enfrentamento das dificuldades de aprendizagem e das situações de vulnerabilidade psicossocial em que os estudantes estão inseridos”, destaca a Socióloga Franciele Alves, vice-presidente do Instituto Cultiva.

Entenda o projeto – O Projeto Prevenir a Violência Escolar é um programa de formação e preparação permanente de técnicos e lideranças de Suzano, orientados para uma gestão compartilhada e que intercala ações de pesquisa e trabalho em grupo, criando-se assim um espírito coletivo. A proposta é sustentada por três redes de atuação: Sistema Educacional (pedagogos, diretores e docentes), Secretarias Parceiras (Saúde e Desenvolvimento Social) e Conselhos Tutelares e de Direitos (lideranças comunitárias). Essas três redes criam um sistema integrado de proteção aos estudantes e suas famílias. O programa de formação implantado para dar suporte às redes e ao processo de decisão dos encaminhamentos definidos para apoio às famílias, acontece durante encontros sequenciais que envolvem professores, diretores,  equipes pedagógicas e articuladores comunitários.

Formação Continuada – No processo de preparação, aliado ao trabalho prático, todos os agentes recebem cadernos de formação específicos a cada público, que funcionam como um circuito condutor, mas não se trata de um manual a ser adotado como guia de conduta. Os diretores e coordenadores pedagógicos das escolas são orientados sobre o papel de cada um. Eles discutem possíveis mudanças no caderno, apresentam emendas e são os responsáveis por coordenar a formação dos docentes. A formação dos articuladores comunitários, técnicos encarregados de visitar as famílias, é realizada em cinco encontros. Durante o treinamento são apresentadas as concepções do Projeto Prevenir a Violência Escolar; conceitos a partir de definições de educação (formal e informal); comunidade e território; estudo dos programas sociais e educacionais de Suzano; papel das lideranças; políticas públicas; orçamentos públicos; exposição dos agentes de saúde; exposição das equipes do CRAS; relação dos equipamentos e o ciclo do Programa Comunidades Educadoras; técnicas de abordagem; planejamento de visitas, rotina e lançamento de dados (acesso ao site de lançamento de dados); simulação de visitas e esclarecimento de dúvidas. A formação dos Docentes é mensal ou quinzenal, conforme a definição de cada escola. Nos encontros são realizados diagnósticos das famílias dos alunos e do comportamento e desempenho escolar dos estudantes de cada turno das escolas. Os professores fazem um paralelo dos dois diagnósticos procurando indicar a relação causa-efeito. Também é elaborado um Plano de Ação para superação dos problemas identificados nos dois diagnósticos.

Em 2020, além da continuidade da formação desses públicos, também serão preparados os conselheiros de direitos, conselheiros tutelares e lideranças comunitárias dos bairros de Suzano.

Articuladores Comunitários – O trabalho consiste em visitas às famílias de alunos em situação de vulnerabilidade.  As visitas são semanais  e  realizadas após a identificação das famílias por parte da SEM. Os técnicos levantam informações sobre condições de vida, tempo de convívio familiar, acesso a bens culturais e sociais, acolhida comunitária e acompanhamento dos responsáveis em relação aos estudos e progressão na carreira estudantil.  Os dados coletados são inseridos no site dedicado ao programa.

Avaliação e Diagnóstico – Enquanto os docentes avaliam individualmente os alunos, os diretores e coordenadores pedagógicos avaliarão as diferenças de desempenho entre turmas, procurando observar desníveis no interior da mesma unidade escolar e turnos. O papel do coordenador pedagógico nesse momento é muito importante; guiado por parâmetros básicos de avaliação, ele apresenta diagnósticos e possíveis soluções para turmas com descompasso de comportamento e desempenho pedagógico, em relação ao conjunto da série ou nível. “Essa avaliação conjunta é extremamente relevante. Cada criança possui um desenvolvimento específico e os anos de transição entre ciclos de desenvolvimento são os mais difíceis entre crianças e jovens. Daí a necessidade de sistematizarmos informações pedagógicas e comportamentais que apontem cada etapa de desenvolvimento e sua transição para a seguinte”, destaca o Sociólogo Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva.  Esse mapeamento aprofundado dos estudantes da rede municipal é analisado pelo Instituto Cultiva e pela Secretaria de Educação de Suzano; as equipes elaboram, em conjunto, os relatórios analíticos.

Relatório Analítico – O relatório analítico e as recomendações técnicas são discutidas em reuniões com representantes da Secretaria de Educação para sistematização dos encaminhamentos e protocolos de atendimento. Em seguida, são discutidos com as secretarias de Saúde, Assistência e Desenvolvimento Social, Cultura, Esportes e Lazer e Segurança Cidadã para definir ações governamentais de políticas públicas. As famílias são informadas das orientações que serão tomadas e são acompanhadas nos impactos obtidos. A partir desses relatórios, um Comitê Gestor Integrado, composto pelas redes de proteção, analisa os dados e define os encaminhamentos técnicos para cada caso.

Comitê Gestor Regional – No final do primeiro semestre de 2020, o Instituto Cultiva inicia a descentralização do programa, a partir da criação de comitês gestores regionais, formados por diretores das escolas de cada região, articuladores comunitários daquele território, representantes de UBS, de CRAS regional, de conselheiros tutelares, lideranças comunitárias locais e outras representações da região (governamentais e não governamentais). Os comitês receberão os dados e decidirão sobre encaminhamentos para cada família e alunos que serão remetidos aos gabinetes dos órgãos e entidades envolvidas.

A concepção pedagógica do Instituto Cultiva é freireana, ou seja, fundamentada no método de educação de Paulo Freire. Portanto, busca a autonomia do educador, assim os professores se reúnem e realizam o trabalho em conjunto, a partir de um roteiro de discussão. A consultoria prestada pelo Instituto Cultiva tem como pressuposto central a sustentabilidade do projeto e a transferência de tecnologia para a Secretaria de Educação do município, para que o trabalho tenha continuidade mesmo quando a consultoria não estiver mais presente. Dessa forma o objetivo é que a Secretaria construa autonomia para condução do Programa.

Acompanhe a linha do tempo do andamento do Projeto Prevenir a Violência Escolar: Implantação do Comunidades Educadoras em Suzano.

Comunidades Educadoras em Contagem – Como explicado, o principal objetivo do projeto Comunidades Educadoras é a criação de uma rede territorial de proteção e prevenção da violência escolar para atendimento à famílias de alunos em situação de vulnerabilidade. Em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, terceiro município mais populoso do estado, o Comunidades Educadoras foi implantado entre os anos de 2016 e 2017. Na ocasião, o trabalho desenvolvido junto à Secretaria de Educação contribuiu para a melhoria de índices escolares; por exemplo, o desempenho dos alunos mais fracos subiu para 64%, a evasão  diminuiu em 90% e a violência caiu em 80%”. Resultado que garantiu ao município o Prêmio Cidade da Aprendizagem da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em 2017. Naquele ano, outras 15 cidades pelo mundo também foram premiadas, e Contagem foi a única do Brasil.

Em 2013, a UNESCO realizou em Pequim, na China, a 1ª Conferência Internacional Cidades de Aprendizagem. O objetivo é fomentar projetos que promovam a educação dentro e fora da escola, e ao longo da vida, para que os municípios destinem suas políticas públicas a essa finalidade; e também possam compartilhar as ideias com outros países e façam parte da Rede Global de Cidades Aprendizes da UNESCO. Até o momento, pelo menos mil cidades em todo o mundo já fazem parte da rede ou estão em processo de adesão. A Rede Global de Cidades Aprendizagem é coordenada pelo Instituto da UNESCO para Aprendizagem ao Longo da Vida (UIL, em inglês), com sede em Hamburgo, na Alemanha. Os projetos da UNESCO também estão em comunhão com as metas estabelecidas pela Agenda 2030 da ONU com seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.