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Hoje vou escrever um pouco sobre como e quando conheci Paulo Freire. Ultimamente, muito se fala sobre esse fantástico intelectual, mas poucos sabem realmente o que disse ou escreveu. É como citar Ulisses, do Joyce: falar do livro dá status, mas poucos passaram da página 3.

Quando eu tinha 16 anos, saí do interior de SP (Tupã), e fui estudar o terceiro ano do ensino médio em São Paulo. Não deu outra: me joguei de cabeça nos movimentos sociais, renovação cultural e organizações de esquerda que emergiam no cenário fervilhante da queda da ditadura. De repente, soube que Paulo Freire, que tinha acabado de retornar do exílio, seria homenageado no TUCA, o teatro da PUC SP. Seria à noite. Fui correndo para lá. Ao chegar, não consegui entrar no TUCA. Era uma multidão. Do lado de fora, uma verdadeira livraria ambulante. Pela primeira vez, tive contato com os “posadistas”, porque usei uma cadeira que estava na banca de livros e jornais que vendiam para tentar enxergar Freire ao lado de Dom Paulo. J. Posadas escrevia sobre tudo, de música à ecologia. Acabou escrevendo sobre OVNIs socialistas (!). Dom Paulo, naquela noite, anunciou que Paulo seria professor da PUC.

Então, ali, decidi prestar o vestibular da PUC SP. E entrei em Direito, meio que no embalo das minhas leituras sobre as Ligas Camponesas e o papel de Julião como advogado. Logo de início, tive contato com Zé Dirceu que tinha que fazer uma matéria para se diplomar.

A PUC SP era uma festa democrática diária. Mas, o fato é que algumas aulas não me animavam muito e eu fugia para o 4º andar do prédio novo onde estava instalada a pós-graduação. Uma constelação: Florestan, Barelli, Pignatari e Paulo Freire. Decidi assistir as aulas de Freire. Num belo dia, ao acabar a aula, Freire pede para eu ficar. Não vou dizer que gelei porque no alto da adolescência para a juventude a gente acha que o mundo nos deve algum favor. Mas, Paulo Freire fez um desafio: para assistir as suas aulas, teria que ser um aluno de fato. Então, comecei a ler todos os livros, a participar das atividades e assim por diante.

Acho que cumpri as expectativas porque Freire me convidou para participar dos seminários do sábado, na sala 333. Lá fui eu. Quando cheguei, sala lotada. Gente do mundo todo. Hoje, consigo ligar uma coisa que na época parecia exótica: a presença de gente de países europeus nórdicos, principalmente, da Finlândia. Esse país, há anos, está no topo do ranking da educação mundial. Há anos adota Paulo Freire e Anísio Teixeira como referências. Esses seminários aos sábados se tornaram, para mim, uma lição sobre como se deve ler um livro. Lembro que Paulo tinha sugerido a leitura de Dialética do Concreto, de Karel Kosik, um marxista heterodoxo. A cada sábado, Freire lia meia página do livro, para meu desespero juvenil. Eu fazia as contas e imaginava que quando eu tivesse uns 80 anos, estaríamos no 3º capítulo. Até entender que um livro é uma obra aberta e que se trata de uma conta matemática: o que escreve subtrai algo de sua vida para dar ao leitor e o leitor soma à sua vida o que leu. Essa história de escrever e ler ser uma conta matemática ouvi de Bartolomeu Campos Queirós, quando falamos numa escola sobre a importância das bibliotecas.

Mas, o fato é que os seminários de sábado acabaram rendendo outro convite: para eu ser alfabetizador de adultos. Engrossei uma equipe de educadores e dávamos aulas para porteiros e empregadas domésticas que trabalhavam nos edifícios ao redor da PUC SP. Não me lembro das pessoas que faziam parte do grupo de educadores, mas lembro bem de um episódio revelador. Num dia, depois de uma aula, nos reunimos – como sempre fazíamos ao final das aulas – para discutir o universo vocabular e de experiências dos educandos. Não vou entrar em detalhes sobre a importância dessa leitura quase etnográfica, mas naquele dia, alguém pisou no tomate. Uma das educadoras, desavisada, comentou que uma das educandas, uma senhora, falava muito errado. Era raro Paulo Freire estar conosco, mas, naquele dia, estava entre nós. E foi a única vez que senti que estava irado com o que ouvia. Paulo perguntou o que a senhora teria dito. A resposta foi: “ela falou nóis vai”. E Paulo: “e você entendeu o que ela queria dizer?”. A jovem educadora ficou meio atônita e respondeu que sim. No que veio outra pergunta: “E para que serve a linguagem?”. A ficha caiu ali mesmo. Se ela havia entendido, houve comunicação. Paulo Freire nos explicou que se há comunicação, a linguagem cumpriu sua função. Então, não seria exatamente uma fala errada, mas, talvez, inadequada. Assim como é inadequado falar de maneira pomposa durante um jogo de futebol. Esta lição, tempos depois, estava nos PCNs. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), está lá esse conceito de formas de falar que são adequadas a cada meio. O caso é que ali começávamos a sair dos livros para compreender o sentido prático de conceitos como silêncio tático, ad-mirar, empatia, construção da autonomia.

Não vou me delongar. Conviver com Paulo era ter aulas diárias sem a formalidade de um plano de estudos. Paulo era extremamente generoso e rigoroso. Adorava o som das palavras e, mais ainda, das pessoas. Na política, alguém com essa marca e que conheci foi Erundina.

Fico por aqui. Atacar Paulo Freire é atacar o que os brasileiros têm de mais generoso e reflexivo na educação e na relação social refletida. É cuspir no prato que nos ofereceram. É uma burrice, uma canalhice.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva.