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Por  Wallace Armani

A Missa de Réquiem é originalmente uma missa fúnebre católica com texto em latim e que inicia com a expressão Requiem aeterna dona eis, Domine (Concedei-lhes descanso eterno, ó Senhor). A Missa de Réquiem é também conhecida como Missa pro defunctis (Missa para os fiéis defuntos). Vários compositores produziram obras musicais belíssimas tendo esse texto como base. Alguns com o texto em sua íntegra e outros em partes. Destaco aqui a Messa de Requiem de Giuseppe Verdi, Ein deutsches Requiem (Um réquiem alemão) de Johannes Brahms, os Réquiens em ré menor de Wolfgang Amadeus Mozart e de Gabriel Fauré e o Polskie Requiem (Réquiem polonês) de Krzysztof Penderecki.

Estamos imersos em uma pandemia jamais vista e nenhum réquiem acima mencionado daria conta de homenagear ou chamar a atenção. Em um nível global, nos aproximamos da perda de 600.000 vidas. Isso representa algo maior que as vítimas de Hiroshima e Nagasaki em 1945 e as do tsunami em 2004 juntos. Vivenciamos uma mega crise, pois ela representa uma crise sanitária, uma crise social, uma crise econômica e de maneira mais preocupante, uma crise civilizatória.

Por outro lado, tem me incomodado profundamente a propagação de um termo que ficou conhecido como “novo normal”. Como se vivermos em um estado de luto permanente, de perdas simbólicas, de perda de referências, da perda de nossos centros, da perda de nossos empregos, da perda de nossos abraços, da perda de nossos familiares e da perda de nossa capacidade de sentir aquilo que o outro sente e pudesse representar um “novo normal”. Essa normalidade forjada e ilusória. Normalidade que nos leva a agir como autômatos que caminham e que se conectam uns com os outros ao serem plugados em computadores. A mega crise, como um tsunami, desvelou uma ou todas as mazelas humanas, das mais íntimas às mais escancaradas. Não há máscara no mundo que oculte isso. Ela veio como em um Dies Irae (Dia da Ira), de uma missa de réquiem.

A mega crise e a pandemia transformaram o globo em um grande teatro em que todos nós somos ao mesmo tempo cantores, instrumentistas e plateia de um réquiem sem compositor, sem regente, sem ensaio e sem hora para acabar. Entretanto, é notório o emprego da expressão “pós-pandemia”. O que isso de fato significa? Como podemos pensar nisso sem de fato estarmos preparados para lidar com a pandemia? Será que alguém que viveu durante a Segunda Guerra Mundial estava pensando em um pós-guerra? Pós-pandemia poderia ser enquadrado como uma escola estética? Poderíamos criar um movimento artístico ou um manifesto chamado Pós-Pandêmico? Pós-Pandemismo? Movimento Pós-Pandemista? A pós-pandemia se dissolve em sua abstração fugidia. Precisamos primeiramente entender e nos livrar, se é que isso é possível, da pandemia. Em um segundo momento, pensamos naquilo que pode vir a ser. Até lá, nenhuma Missa de Réquiem dará conta de tantas perdas.

Wallace Armani é Analista Social do Instituto Cultiva