Professoras relatam casos durante curso de Mediação de Conflitos

A última roda de conversa entre os docentes da rede municipal de ensino de Suzano e a equipe do Instituto Cultiva, foi marcada pela troca de experiências, relatos de alguns dos casos vivenciados nas escolas e a divulgação das novas etapas do Projeto Prevenir a Violência Escolar: implantando o Comunidades Educadoras. O encontro virtual faz parte do Curso de Mediação de Conflitos que está sendo ministrado a pelo menos 900 profissionais da Secretaria Municipal de Educação de Suzano (SEM).

Na quinta-feira, 13/08, durante quase duas horas, foi realizada a roda de conversa com a participação de Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, Franciele Alves, Vice-presidente e as professoras Amanda Delgado Ribeiro de Souza da Escola municipal Sérgio Simão, Patricia Elizabeth Moreira Jorge Arias da Escola municipal Angela Martins e Ana Paula Braga da Escola Municipal Therezinha Muzzel. Os demais professores da SEM acompanharam tudo e também interagiram com envio de mensagens, comentários e perguntas. Ricci esclareceu que após a conclusão do curso será feita uma discussão para ter uma visão geral dos protocolos dos casos urgentes ou urgentíssimos que estão sendo construídos pelos educadores. O objetivo é unificar os casos similares de cada escola para que os encaminhamentos sejam o mesmo em toda a rede.

Relatos das professoras – As três professoras falaram sobre os desafios enfrentados e como cada uma tratou as questões apresentadas. Ana Paula citou o caso de uma criança que assediava as outras crianças com chantagens. Segundo a professora a conversa com as famílias e a mobilização na escola ajudaram a mudar o comportamento da criança. “É um desafio todas essas questões, além da didática, do ensinar bem, o desafio de lidar com os conflitos na sala de aula nos faz refletir sobre a nossa prática”, destaca Ana Paula.  Amanda Delgado, trouxe dois casos, uma aluna do quarto ano que sofria agressões físicas e um aluno que chorava muito, não queria estar na escola e ficava agressivo. Em uma ocasião foi necessário fazer contato com a família do aluno, mas, a situação se agravou, porque o menino não queria ir embora com a mãe. A escola teve de acompanha-lo até a casa dele. A professora Patrícia Elizabeth trouxe o relato de outra situação muito delicada e que mostra como centenas de crianças em todo o Brasil vivem dramas que dificultam a socialização e o rendimento escolar. A história é de uma criança que estava na escola desde os 4 anos de idade, e apresentava situações de agressividade com a professora, não gostava de ficar dentro de casa. O pai dela foi assassinado, era criada pela avó, que chegou a relatar que a criança teria sido vendida, mas, ela conseguiu resgatar dos traficantes.

“A gente precisa pensar no aluno não como número, não como nota. Pensar macro. A gente não tem como resolver isso agora, mas a gente tem de pensar e idealizar que em algum momento no Brasil, vai ter um espaço de educação que vê o estudante não só em ranking de notas, mas, como um sujeito que tem uma história e que precisa desse apoio. ” Patrícia Elizabeth.

A vice-presidente do Instituto Cultiva, Franciele Alves, ressaltou a importância do diálogo entre famílias, comunidades, para que se possa pensar os casos da escola. Franciele também informou sobre os produtos que estão sendo construídos pelos educadores. Um deles é um caderno com relato dos casos acompanhados, foram mais de 480 registros.  O outro será a criação de um caderno de protocolos, elaborado nas escolas, para ser disponibilizado na rede de territórios como referência das experiências.

Próximas etapas – O Instituto Cultiva também irá promover ainda este ano cursos de Educação Socioemocional, de formação para Conselheiros Municipais de Educação, Saúde, Assistência Social, Cultura, Esporte, Direito e Direito da Criança e do Adolescente. Também será desenvolvido um curso de formação para todos os Conselheiros Tutelares para o alinhamento de todas as discussões gerais em cada Conselho, com todas as diretrizes do Projeto Prevenir a Violência Escolar. Após todas as orientações, o programa será descentralizado e serão criados três comitês regionais, com o suporte das Secretarias municipais, Conselhos e Escolas. Esses comitês passarão a discutir os casos concretos de cada aluno, pelo menos uma vez ao mês, apresentarão os encaminhamentos necessários por região e as decisões serão levadas às secretarias, conforme a especificidade de cada situação.

Seminário Geral – Em setembro será feita uma análise do Projeto com diretores, professores, pais e demais envolvidos no programa. E a partir de 15 de novembro um Seminário Geral Municipal para uma avaliação global de tudo o que foi construído desde julho de 2019. O Instituto Cultiva também já está articulando a realização de oficinas e palestras relacionados aos temas discutidos durante o programa, como os encaminhamentos de protocolos, o relacionamento com a família, a questão da violência.

FLACSO E UNESCO – Uma das propostas é também a organização de uma mesa de debates com representantes da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).  Em  2017 o Programa Comunidades Educadoras, recebeu  da Unesco o  Prêmio Cidade da Aprendizagem, como uma das 16 experiências mais exitosas no mundo em educação pública. A mesa poderá contar com a participação de uma das principais educadoras na elaboração das políticas de ONU, Rosa Maria Torres, ex-ministra de Cultura do Equador; uma palestra sobre violência intrafamiliar envolvendo crianças e adolescentes, com a professora da Universidade do Paraná, Luci Pfeiffer, Médica Pediatra e Psicanalista de Crianças e Adolescentes e Mario Sergio Cortella, filósofo, escritor, educador, palestrante e professor universitário.

Confira aqui o vídeo da Roda de Conversa.