Instituto Cultiva

RUDÁ RICCI: Um dia de cão

Um cachorro é brutalmente assassinado. Com muitos sinais de crueldade inimagináveis. Os relatos deixam qualquer pessoa minimamente sã absolutamente indignada. Ocorre que este fato não é isolado.

Maus-tratos contra os animais é o 5º crime mais cometido no Brasil. Somente no Estado de São Paulo, são 25 casos registrados por dia, segundo dados da Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (Depa), da Secretaria de Segurança Pública (SSP). Há uma cultura de abusos e violência contra animais em nosso país. O que sugere a necessidade de reeducação.

O fato que envolveu o cachorro Orelha gerou uma comoção nas redes sociais. Atos de solidariedade foram se espalhando como um movimento aparentemente espontâneo. Até que a cultura da violência – a mesma que alimenta os ataques a animais – entrou em cena. Uma profusão de postagens em várias redes sociais exibiram as fotos dos adolescentes acusados do ato brutal contra Orelha. Não satisfeitos, alguns internautas passaram a insuflar o linchamento desses jovens. Em seguida, estimularam que fossem em bandos ao aeroporto onde desembarcariam dois jovens acusados. Os ataques escalaram e passaram a se dirigir contra seus pais.

De repente, o argumento apresentado pelos linchadores virtuais foi a de que os jovens envolvidos seriam ricos. E, concluíam, ricos que cometem crimes passam impunes e ilesos. Era a busca de um argumento que daria uma aura de nobreza, na defesa da igualdade. Mas, não era disso que se tratava. Era uma onda de violência incontida que se formava.

Estou lendo o livro “O Nazista e o Psiquiatra” escrito por Jack El-Hai. Nele é narrada a história real de Douglas M. Kelley, um psiquiatra norte-americano enviado para avaliar a saúde mental dos líderes nazistas presos após a Segunda Guerra Mundial, incluindo Hermann Göring, para o julgamento de Nuremberg. Kelley descreve a saúde mental do núcleo central do nazismo, após a morte de Hitler. O psiquiatra queria entender a origem da crueldade. Percebeu que os encarcerados não eram loucos e poderiam ser julgados já que “garantias e direitos judiciais são inerentes a todo ser humano, sem exceção”, segundo afirmação de Carlos Ayala Corao, presidente da Comissão Internacional de Juristas.

A leitura do livro nos faz refletir sobre o que faz alguém que aparentemente é mentalmente são desfechar um movimento nacional de ódio e violência contra famílias e trabalhadores por interesse, mas também por revanche, como movimento irracional e intempestivo.

Na outra ponta, o que assombra a todo cientista social – e psicólogos – é o que faz que parte significativa de uma nação se envolva numa desventura de crueldade e destrutividade como se fosse algo natural ou justificável, como ocorreu na Alemanha nazista, mas também aqui no Brasil, com o bolsonarismo.

Havia interesse, é verdade. Géraldine Schwarz escreveu um livro desconcertante, “Os amnésicos”, sobre a história de sua família, em especial, seu avô, e de outros alemães que se aproveitaram do movimento irracional contra judeus para tomar propriedades e postos de trabalho. No desespero de fugir da SS, judeus venderam seus negócios e foram explorados por alemães inescrupulosos que se apresentavam como beneméritos, negociando empresas a preços de banana. O mesmo ocorreu nas universidades alemãs, onde professores judeus eram perseguidos por colegas que assumiam seus cobiçados postos.

O psicanalista alemão Erich Fromm, da Escola de Frankfurt, produziu uma obra monumental para entender que tipo de almas torturadas se envolvem com movimentos destemperados e violentos. Em “Anatomia da Destrutividade Humana”, Fromm lista almas nitidamente torturadas, como sádicos, que aguardam um ambiente propício para vir à tona e atacar indefesos. Mas, também relata casos de tédio crônico que levam um velhinho a se atirar numa aventura que dê algum sentido à sua vida, como ocorreu no dia 8 de janeiro em Brasília. Também discorre sobre almas que necessitam e procuram uma liderança que dê ordem e direção à sua vida, mesmo não concordando plenamente com o pensamento do ídolo torto.

O caso de Orelha envolve violências, no plural. Começa com o ato desumano contra um cachorro indefeso e deságua num movimento de linchamento virtual alimentado por um ódio irracional.

O linchamento virtual é um sintoma de distúrbio grave de parte dos que se apresentam como ativistas da causa animal. Tais ativistas cometeram diversos crimes, como ao ofender o artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que proíbe a exposição de fotos de adolescentes acusados de alguma infração. O ECA se baseia na concepção – fundamentada em muitos estudos científicos, desde os desenvolvidos por Piaget até os atuais, sobre desenvolvimento humano – de que adolescentes vivem uma fase de transição entre a infância e a vida adulta. No Brasil, esta fase é limitada juridicamente entre os 12 e os 18 anos. Significa que no adolescente há certo discernimento, mas ainda não conseguem tomar decisões com total controle racional, dado que o córtex pré-frontal, responsável pelas decisões racionais, planejamento, controle de impulsos e pensamento crítico ainda está em amadurecimento, se completando por volta dos 25 anos. Pesquisas recentes da Universidade de Cambridge, publicadas na “Nature Communications”, indicam que a adolescência cerebral pode se estender até os 32 anos. Este período é caracterizado por intensas transformações estruturais no cérebro, refinando conexões neurais e aumentando a eficiência cognitiva, indo além da puberdade física e redefinindo o início da fase adulta plena.

Se se trata de uma fase intermediária, a justiça tem que incorporar este fato e não tratar o adolescente como adulto. Neste caso, o Brasil optou por tratá-lo de maneira especial, como responsável pelos atos que comete, mas não imputável, ou seja, não conferindo uma pena a um crime cometido, mas reeducando-o. Aliás, no espírito das leis brasileiras, o adolescente internado não está sendo punido, mas resguardado para se submeter a um programa de reeducação mais intenso. Tanto que o adolescente internado é estimulado a manter relações com familiares e manter pontes para sua ressocialização.

Em países de cultura anglo-saxônica, este entendimento científico não é observado. Assim, uma criança é entendida como plenamente consciente dos crimes que comete. E daí surgem imensos erros do sistema judicial desses países. Um dos casos mais impactantes foi o de Mary Bell, relatado em livro publicado no Brasil com o título “Gritos no Vazio”.

O caso se passa na Inglaterra e envolve uma menina de 11 anos de idade que assassina duas crianças mais novas. Julgada e condenada, esta menina viveu enclausurada durante grande parte de sua vida. Dentre outras descobertas sobre como se envolvia emocionalmente com os crimes cometidos, a mais chocante é que Mary era usada como “bônus” por sua mãe, que era prostituta, como oferenda a seus clientes. Para tolerar os abusos, a menina se transportava mentalmente para um lugar vazio e sentia que “morria”, retornando à vida quando saía do quarto. Mary acreditava que o transporte da vida à morte, retornando à vida, ocorria com todos. Uma vida tortuosa e torturada que misturou revolta, escapismo, ódio e confusão entre fantasia e realidade. A prisão de crianças não alterou os dados de violência envolvendo adolescentes. O que sugere que esta punição às crianças e adolescentes, além de não ter o menor fundamento científico, é uma mera vingança abstrata de adultos que também são tomados por medo e ódio.

Os EUA, lembremos, lideram a penalização pesada de crianças. E as crianças e adolescentes norte-americanas lideram assassinatos e ataques a escolas e comunidades. A constatação é tão evidente que desde 2005, 29 Estados americanos e a capital Washington aprovaram leis que tornaram mais difícil processar e punir adolescentes como se fossem maiores de idade. Perceberam que este tratamento não surtia efeito positivo nenhum. Mesmo assim, todos os anos 250 mil adolescentes são julgados e punidos como adultos nos Estados Unidos, o que faz este país ter as maiores populações de jovens encarcerados do mundo.

A questão central é que adolescente é uma fase intermediária da vida que Contardo Calligaris definiu como “moratória”. Como uma moratória em que sei que devo, mas suspendo o pagamento até estar estável, o adolescente está quase preparado para ser adulto, mas ainda não pode fazer tudo o que os adultos fazem. A contradição que se instala é que os adultos incentivam os adolescentes a “treinarem para ser adultos”. Incentivam que dirijam carros em terrenos baldios ou ruas ermas para logo adiante conseguir tirar uma habilitação. Este é apenas um exemplo de tantas outras contradições que adultos impõem aos adolescentes.

Anos atrás, fui convidado a dar uma palestra numa escola estadual na região metropolitana de São Paulo. Pediram para eu falar de violência. Quando entrei, uns 200 adolescentes estavam sentados na quadra coberta. Quando os vi na minha frente, resolvi mudar o script que havia esboçado e comecei a relatar sobre como sofri bullying na pré-adolescência e as peripécias de meus pais para ajudar a superar tudo (nem sempre acertando). Os adolescentes pareciam atentos e alguns riam na minha cara. Então, perguntei se eles também sofriam algo assim e, de repente, uns 50 adolescentes arregaçaram os agasalhos que vestiam e mostraram marcas de autoflagelação. Confesso que fiquei impactado e tentei me recompor.

A partir dessa visita à escola, comecei a estudar sobre autoflagelação. E a pesquisar sobre os ambientes familiares. Nossa equipe do Instituto Cultiva analisa dados colhidos por técnicos que visitam famílias de alunos de escolas públicas. O que constatamos é que após a pandemia, mães e avós mergulharam num caos emocional. Constatamos em dezenas de municípios de várias regiões e dimensões que entre 40% e 70% das mães sofriam de depressão aguda, sendo que metade não recebia atendimento especializado.

Durante a pandemia, constatamos que professores viveram a mesma turbulência. Em dois Estados que pesquisamos, da região Sudeste e Centro-Oeste, 40% dos professores entrevistados relataram que os conflitos intrafamiliares aumentaram muito em função do confinamento imposto pela pandemia e divisão de tarefas domiciliares e profissionais que acarretou. Tudo feito em casa: cuidar dos filhos, preparar as atividades remotas para seus alunos, limpar a casa e assim por diante. Lembremos que as mães nunca dedicam menos de 30% de seu tempo semanal para esses cuidados com família e sua casa e os homens, segundo o IBGE, nunca dedicam mais que 15% do seu tampo semanal para as mesmas tarefas.

O fato é que pouco sabemos sobre a extensão do impacto desses transtornos e sofrimentos dos pais sobre seus filhos. O impacto, contudo, parece imenso sobre adolescentes, fase em que começam a construir a noção de justiça e comparar uma regra com outra. Seu discernimento é mais aguçado e as contradições explodem nos seus olhos.

Ontem foi um dia particularmente angustiante para mim. Fui percebendo que ativistas sociais, aparentemente bem-intencionados, eram tragados pela onda de linchamento virtual e escalavam para estimular ataques aos adolescentes acusados de assassinar Orelha e destruir suas famílias.

Tentei inicialmente argumentar que estavam cometendo um outro crime. Houve uma ou outra compreensão, mas a tônica foi me atacar como se eu estivesse defendendo o assassinato. Uma turba ensandecida desfilava diante dos meus olhos e não havia como não relacionar com a explosão de ódio manipulada pelo nazismo e bolsonarismo.

Acredito que as redes sociais estimulam tal comportamento irracional. Elas vivem disso, na verdade. Um levantamento sobre o que atraiu mais no Google em 2025 em nosso país revelou que o conflito atrai mais as atenções. Quem desejava atrair seguidores e visualizações teve que partir para a briga.

Não somos o país campeão mundial de linchamentos à toa. E não foi uma mera coincidência que este recurso – o linchamento – foi estimulado ontem nas redes sociais contra os adolescentes e suas famílias.

Temos um substrato cultural que só espera um gatilho para ser acionado. Se o acontecimento é significativamente explosivo e que justifique uma reação coletiva e a indignação, mais potente será o gatilho. Acionado o gatilho, as reações escalam e caminham para não se diferenciar com clareza sobre a reação dos vingadores e a ação original dos criminosos em tela.

O Brasil precisa se ver no espelho. Com urgência. O bolsonarismo não foi, ao que parece, um acidente de percurso. Foi uma canalização deste substrato emocional e cultural de nosso país focado no ressentimento e vingança.