Jornalista Lucia Faria

Autointitulado workaholic e apaixonado pelo que faz, o cientista político Rudá Ricci se joga por completo nos projetos em que se envolve. Foi assim desde o início de sua trajetória no universo estudantil, ainda em Tupã, no interior de São Paulo. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) conheceu Paulo Freire, recém-chegado do exílio, e passou a trabalhar com ele. Nos anos seguintes, Rudá participou de diversos movimentos sociais e esteve ao lado dos maiores líderes brasileiros de esquerda. A vida lhe apresentou grandes oportunidades e a todas ele disse sim. O Instituto Cultiva é sua paixão desde 2002. “Quando conheci Darcy Ribeiro me identifiquei muito com ele. Não chego a tanto, mas sou exagerado, coloco meta irracional, me jogo nos projetos. Minha marca pessoal é a paixão”.

Qual o impacto de ganhar o Prêmio Cidade da Aprendizagem da Unesco, em 2017, e ter o trabalho desenvolvido em Contagem considerado uma das 16 experiências com maior êxito no mundo no âmbito da educação pública?

Rudá Ricci – A primeira vez que implantamos o Comunidades Educadoras foi em Contagem. Na verdade, esse programa é a articulação de vários outros que já tínhamos construído na história do Cultiva. Não era uma inovação para nós, algo que estivéssemos testando. Já tínhamos testado várias coisas, menos essa história de um servidor ir na casa da família. No programa Gestão em Rede um funcionário da Prefeitura ia na casa dos moradores, não exatamente dos pais. A técnica já tínhamos – fizemos em Machado, em Pouso Alegre, entre outros municípios, mas ainda não vinculados à educação. Criamos isso em Contagem. Já tínhamos oito meses do projeto quando soubemos de um evento da Unesco no México. Os representantes da área de Educação da cidade foram lá apresentar o trabalho e a Unesco se encantou. Disseram que queriam acompanhar os resultados. Em 2017 nos deram o prêmio.

De que forma a presença dos articuladores comunitários impacta a comunidade escolar?

Rudá Ricci – Os articuladores se apaixonam pelo Cultiva porque a gente faz muita simulação, muita conversa. Da formação deles participam secretários de governo falando sobre os programas e, boa parte deles, nunca chegou perto de um secretário. Fazemos muita simulação antes dele ir na casa da família, fingimos situações, criamos teatrinho. Tudo dentro de concepção pedagógica que eles só tinham ouvido falar. E nós colocamos tudo isso na prática. Os diretores também estranham quando começamos a formação com eles. Queremos saber a opinião deles, algo que não é muito comum perguntarem. E mostramos muitos dados, sempre ressaltando a importância de valorizar os professores e articuladores. Eles se surpreendem e as resistências acabam. Muitos querem se tornar articuladores. Depois, então, vamos ouvir as famílias e dar apoio às Secretarias. Eles sabem que podem contar com a gente por inteiro.

Mesmo com a pandemia atrapalhando o processo, o projeto deu certo?

Rudá Ricci – Faz parte dos princípios do Cultiva que, numa consultoria, nem sempre a gente atende quem nos contrata. Mas sempre atendemos a base social. A criança, o adolescente, as famílias pobres, o trabalhador rural, queremos mudar a realidade deles.

Queremos saber se família está indo bem. Só vamos falar que deu certo quando mudar na base. Se os pais sentirem que mudou a relação com a escola, que estão felizes e estão bem. Enquanto não tivermos esse dado não podemos falar que está dando certo.  Temos resultado parcial. Segundo os pais, houve melhoria de 40%. Com um semestre a mais, nós chegamos em Contagem a 60% de melhoria das notas. O comportamento mudou em 90% lá. Em Suzano temos avaliação parcialmente positiva que os pais disseram que o que mudou mesmo foram os articuladores. Eles não falaram que foi o diretor ou o professor, mas o articulador. Nós descentralizamos o programa.

Depois da criação dos comitês, quais seriam os próximos passos que o Instituto Cultiva recomendaria para esse projeto em Suzano?

Rudá Ricci – Além da manutenção e criação de outras redes descentralizadas, achamos que seria muito importante a unificação do banco de dados das famílias da assistência social, da saúde, com o da Comunidades Educadoras. Se aliar os três bancos de dados – o DataSus, o banco de dados dos CRAS e o das Comunidades Educadoras – é possível criar um cartão do estudante. E, com isso, ter condição de cruzar o desempenho escolar com o atendimento à saúde, com a economia, com a situação social, física e mental das famílias. Com cartão, se um aluno sai de um bairro e vai para outro a escola tem a ficha completa, não só das notas.

A partir daí, há condições de criar um programa que se chama do Pré-Natal ao Primeiro Emprego. É o governo todo focado no apoio à mãe, desde a concepção até o seu filho entrar na vida adulta. Um governo que foca as ações o tempo inteiro de maneira intersetorializada na pessoa.

Outra sugestão é começar a mudar parte do currículo, incluindo toda quarta-feira nas escolas municipais um programa chamado AP Criança, em que os alunos estudam políticas públicas, fazem pesquisa do bairro, elaboram propostas de governo, discutem orçamento, vão estudar o que é receita, o que é despesa, o que é lei de responsabilidade fiscal e depois criar um congresso todo ano da criança e do adolescente que vai decidir sobre propostas da cidade a partir da cabeça deles. Vão eleger um conselhinho e se reunir todo mês com o secretário de Planejamento e o presidente da Câmara. A ideia não é fazer deles um político, mas eles saberem como essa estrutura funciona. A reunião será uma aula por mês, um programa de formação.

Também gostaria de sugerir a criação de uma escola de Cidadania de Suzano. Formação continuada de lideranças de bairro e conselheiros – Conselho Tutelar e Conselho de Direito. Já existe no Cultiva.

E Gestão em Rede, formação de corpo técnico que todo dia visita casa a casa, com tablet, para saber o que acham de todos os serviços da Prefeitura. Isso também já existe no Cultiva.

E o dinheiro para fazer tantos projetos?

Rudá Ricci – Temos certeza que é possível mudar a história dos municípios brasileiros. Que pode ter conjunto de políticas públicas com foco no território e na pessoa. E que podemos melhorar a vida das pessoas. Não estamos pedindo mais dinheiro.

É com o dinheiro que já existe. O FUNDEB vai aumentar o volume de dinheiro para educação pública em 2026. Significa que os próximos prefeitos, que tomam posse no começo de 2021, têm quatro anos de preparação para esse dinheiro que vai chegar. Quero participar dessa preparação para quando chegar o dinheiro a gente ter clareza para onde ele vai.

Desde que ganhamos o prêmio da Unesco temos claro que queremos disputar a política pública no Brasil não como política do Cultiva, mas como política dos brasileiros para a educação. Mostrar que não precisa ter dinheiro para computador, mas é preciso focar no ser humano.

Projetos como o de Suzano podem ser implantados em cidades de qualquer porte?

Rudá Ricci – Qualquer cidade, de qualquer tamanho. A lógica é muito simples. Por isso precisa de comitê gestor, tem uma lógica territorial, transformando em minicidades.

Primeiro a gente monta equipe da Secretaria da Educação, depois monta equipe das escolas. Na sequência, forma um banco de dados. Quando tudo está organizado internamente, vamos para as outras secretarias. Fazemos por etapas. Reunir todo mundo de início fica muito mais complicado. O mais legal é que o programa é simples.