Rede de proteção às crianças rompe fronteiras também entre as Secretarias
Jornalista Lucia Faria

“Quando as pessoas têm o básico assistido, elas podem olhar para outros lugares. E daí talvez possam fazer com que a criança dessa família atenda ao chamado da educação com mais clareza, mais afinco e mais vontade” – Marcelo Marques de Souza

Ao mesmo tempo em que o educador Paulo Freire sofria ataques de uma pequena e desinformada parcela da sociedade, educadores da cidade de Suzano tornavam concreto muitos de seus pensamentos.  Nada relacionado com aquelas frases de efeito comuns nas redes sociais, chavões extraídos de seus livros, entrevistas e palestras. Nessa cidade da Região Metropolitana de São Paulo, com 300 mil habitantes, a prática começou a mostrar que é possível entrar para ganhar no jogo contra a evasão dos alunos, a queda do desempenho e o implacável aumento da violência no ambiente escolar. O percurso é longo, tortuoso, e a partida está apenas no começo. Mas já há indícios concretos para festejar os primeiros resultados. E torcer para que a iniciativa se torne um programa de Estado, sem caminho de volta.

Os moradores de Suzano conhecem bem as dores da violência escolar. As cicatrizes ainda estão abertas após a tragédia ocorrida em março de 2019, quando dois jovens invadiram a escola estadual Raul Brasil e mataram cinco alunos e duas funcionárias, deixando mais 11 feridos. Eles alegavam sofrer bullying, isolamento social e mantinham o desejo de brilhar como heróis ao superar o massacre ocorrido 20 anos antes na escola norte-americana de Columbine, no Colorado. Não conseguiram esse último feito, porém, ganharam as manchetes de todo o mundo.

Meses antes desse ataque, a cidade já dava os primeiros passos para implantar um projeto de combate à violência escolar, ao vandalismo e outras questões envolvendo as escolas municipais. A semente foi plantada com a contratação do Instituto Cultiva, organização não-governamental premiada pela Unesco em 2017 devido aos bons resultados do programa Comunidades Educadoras, desenvolvido na cidade mineira de Contagem. A Organização mundial considerou o projeto como uma das 16 melhores experiências globais no âmbito da educação pública do ano anterior.

“Quando vejo alguém que se corta ou que sofre bullying, eu acabo sendo responsável. A gente minimiza o problema hoje e depois ele vem com uma arma. Houve articulador que soube de criança que, aos nove anos, se cortava. É muito peso e muita dor. Aos 16, ele vai explodir” – Renata Paredes

Os primeiros debates

A tragédia, além da comoção geral, provocou debates acalorados na sociedade sobre a necessidade de aumentar a segurança nas escolas. De um lado, estavam aqueles que defendiam a implantação de atitudes imediatas e visíveis na área de segurança, como o posicionamento de policiais armados nos arredores das escolas, instalação de detectores de metais nas entradas e o controle rigoroso do fluxo de pessoas nas instituições de ensino.

Para outros, no entanto, estava claro que esse aparelhamento não resolveria a raiz do problema. E é desse lado que se encontrava Leandro Bassini, secretário de Educação de Suzano, e um grupo de gestores da área educacional da cidade. “A violência no ambiente escolar tem múltiplos motivos. Essas causas precisam ser buscadas dentro da escola, em cada criança, e também fora da escola, em cada família. É preciso levar em conta, ainda, a própria organização da cidade: aquele bairro onde está a escola tem aparelhos públicos para darem suporte a uma vida saudável e feliz às famílias? A discussão se amplia com esse olhar”, afirma.

O projeto Prevenir a Violência Escolar: Implantação das Comunidades Educadoras em Suzano, estruturado pelo Instituto Cultiva, surge com o propósito de criar uma rede de proteção às crianças e suas famílias. Para Franciele Alves, vice-presidente da consultoria e coordenadora do programa, a aprendizagem é muito impactada também pelos contextos e situação exógenas à escola: “Não é possível prevenir a violência sem aproximação com a comunidade. É preciso humanizar o Estado e torná-lo mais próximo das pessoas”.

Quebrando os muros

Funcionários das 33 escolas municipais de ensino Fundamental I, que abrigam alunos entre 6 e 11 anos, começaram a ser indicados para assumir a função de articuladores comunitários. Compõem esse time profissionais como inspetores de alunos, merendeiras, porteiros, auxiliares de limpeza, entre outros. A escolha não deveria recair, preferencialmente, sobre os professores e diretores.

“Existem pessoas nas escolas com olhar sensível às crianças, de acolhimento, e que não necessariamente estão dentro da sala de aula. São pessoas, muitas vezes, sem conhecimento acadêmico, mas que se aproximam de forma muito natural das crianças”, continua Bassini. Convidadas a participar do projeto, elas passaram por formação de 40 horas para aprender a lidar com as mais diversas situações nesse contato com as famílias. A escolha das crianças recaiu sobre aquelas mais vulneráveis socialmente, com baixo desempenho escolar, dificuldade crônica de aprendizagem, evasão da escola e em situações de violência – seja como vitima ou como autor. Ao todo, as visitas contemplaram 311 famílias desde outubro de 2019.

Para a articuladora comunitária Janaína de Paula Silva Shimizu, o convite para trabalhar no entorno da escola soou como um presente. Pedagoga formada, ela atua como auxiliar de atividades escolares na EM Profa. Ignez de Castro Almeida Mayer, na região Norte da cidade. “A formação nos preparou para enfrentar possíveis situações difíceis, como violência doméstica, fome e a desconfiança por parte dos familiares. Passamos até mesmo por dramatização de situações com as quais poderíamos nos deparar”, lembra.

Coube a ela visitar 39 famílias, todas presencialmente em um primeiro momento. Após o início da pandemia e o isolamento social, porém, o contato passou a ser realizado por WhatsApp, telefone móvel ou fixo, e também durante o plantão escolar. Nesses encontros, Janaína se sentia como uma ponte. “Fui bem recebida, passei confiança e otimismo para a família. Eu me apresentava com o elo entre eles e a escola, oferecendo acolhimento e escuta”, continua.

“Convivemos com o trabalho infantil doméstico e achamos isso normal. Nossa sociedade é muito permissiva. A criança apresenta problemas de comportamento e as pessoas acham que a solução é começar a trabalhar mais cedo. Precisamos entender que a precocidade está longe de ser sinal de saúde e amadurecimento” – Alessandra Ávila

Além da educação

Após esses encontros, os articuladores comunitários voltavam repletos de informações, relatos transformados em relatórios que seguiam direto para as mãos da psicóloga e psicanalista Alessandra Marques Ávila. Coube a ela analisar 250 casos, que viraram mais do que dados em uma planilha de Excel. Muitas das demandas eram voltadas à política de Assistência Social, até mais do que à Educação e à Saúde. “Dar luz a isso foi muito surpreendente e potente para o programa. Havia relatos de situações escabrosas e que demandavam ações imediatas de outras áreas. Alguns articuladores, por exemplo, identificaram situações de fome. Se essa era a situação em 2019, como estaria aquela família com a pandemia?”, destaca.

A partir desse momento, o projeto rompe as paredes da Secretaria de Educação para chegar também às Secretarias de Saúde e de Assistência e Desenvolvimento Social. Segundo Dulce Ramos, coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial da cidade, Suzano já contava com a presença do agente comunitário da saúde, alguém do local que mantém contato com a população do território. “Vimos no projeto uma proposição que dialoga muito com quem já atua na Saúde. Começamos a conversar sobre os casos trazidos pelos articuladores, depois envolvendo também a Assistência Social. Desenhamos uma dinâmica de trabalho muito rica sob várias perspectivas”, afirma.

Um dos maiores erros, em sua opinião, é entender que a única solução na área da Saúde é a medicalização da infância e da adolescência. “A questão da violência e da vulnerabilidade requer respostas além da saúde, com oferta de esporte, lazer e cultura. É preciso criar outros espaços para essas crianças”, diz.

Para integrar e agilizar ainda mais o processo, foram criados três comitês gestores na cidade: nas regiões Norte, Sul e Centro. Deles, participam diretores de escolas, coordenadores, articuladores, representantes dos Conselhos Tutelares e das Secretarias, inclusive Cultura, Esportes e Lazer. “A partir do amadurecimento das discussões dos comitês é que pretendemos chegar ao Projeto de Lei para ser enviado à Câmara. A ideia é transformar esse programa em política pública para que se torne perene e não ocasional”, comenta o secretário de Educação, Leandro Bassini.

Os comitês, compostos por cerca de 20 pessoas cada, são autogeridos, com coordenação do diretor da escola que recebe o grupo. As demandas em análise são separadas em duas dimensões. A primeira tem foco em casos de violência e vulnerabilidade, com escalas que vão de urgente a urgentíssimo. “Urgentes são falta de atenção familiar, ausências familiares e dificuldade de aprendizagem. Urgentíssimos são os casos de fome, violência ou abandono”, explica Eduardo Brasileiro, consultor do Instituto Cultiva.  A segunda dimensão é o olhar sobre a cidadania, fazendo com que as pessoas percebam que são cidadãs e que existem poderes públicos aos quais podem recorrer quando necessário.

Sem julgamentos

A humanização do Estado parece algo muito distante e inúmeras famílias sequer têm conhecimento de seus direitos como cidadãos.  De acordo com Renata Paredes, pedagoga e consultora do Instituto Cultiva, uma família até pode desconfiar do Conselho Tutelar, da UBS e de uma série de serviços públicos, mas não desconfia da escola. Trata-se de uma relação consolidada.

Outro ponto fundamental para o sucesso do programa, no seu ponto de vista, é o não julgamento a respeito das atitudes e comportamentos familiares. Foi o caso de uma mãe que, em situação de abandono e desespero, pensava em colocar fogo na casa com os filhos dentro. Após a visita da articuladora, o caso foi encaminhado rapidamente para a Assistência Social e a situação revertida.

“O resgate da família, o suporte ao adulto, funciona como um efeito dominó que vai atingir a criança. Não estamos falando de transferência de renda, mas de acesso a políticas públicas para garantir a sobrevivência dessa família”, acrescenta.

“É preciso entender a composição familiar. Muitas delas são monoparentais. Com o diagnóstico é possível entender quais são suas demandas a partir da análise das relações interpessoais, os hábitos, se têm opção de lazer ou não. A proposta é tirar a estrutura do Estado de suas caixas. Geralmente, a Saúde faz um atendimento. A Educação, outro. Mas a família é a mesma” – Franciele Alves

Primeiros resultados

Pesquisa realizada com as famílias para avaliar o projeto detectou que, para 40% delas, as visitas ajudaram a solucionar os problemas do dia a dia, como saúde, emprego, segurança, moradia, lazer, entre outros. Já para 70,8% dos entrevistados, o trabalho realizado pela escola contribuiu para melhorar a convivência em casa. O mesmo percentual indicou que as visitas dos articuladores ajudaram a melhorar o comportamento ou desempenho escolar da criança. “As famílias perceberam maior proximidade com a escola, melhor acompanhamento dos estudantes e, consequentemente, maior interesse das crianças. Mesmo na pandemia elas não se sentiram em situação de abandono”, observa Franciele Alves.

Rudá Ricci, fundador e presidente do Instituto Cultiva, relaciona entre os fatores para o sucesso do programa a criação do articulador comunitário, o envolvimento de várias secretarias e também o entendimento das dificuldades dos professores atualmente. “Muitos pais não seguram as crianças e transferem o problema da educação para os professores. As escolas, sem estrutura adequada, recebem um monte de programas e jogam nas costas deles. Isso tudo faz da vida dos professores um caos e uma imensa frustração. A pessoa simplesmente desaba, perde completamente a autoria da profissão, desanima. Começa a ser um autômato e se torna um queixoso. E a realidade não muda. Nós, do Cultiva, não ficamos com filosofia, atacamos o problema. Quando a gente fala que vai discutir com a família, e ver o que está acontecendo com a criança, o professor se admira: é o primeiro que não diz que a culpa é dele”, comenta.

Essa sobrecarga, incluindo todos os funcionários das escolas, é um dos aspectos preocupantes para a professora Amanda Delgado, da EMEF Sergio Simão, na região Norte de Suzano. “Há muitas questões envolvidas, como o orçamento limitado para a Educação, além de estruturas antigas e defasadas. É importante ter um mapeamento profundo, um diagnóstico das deficiências, dos pontos fortes e fracos. Fica difícil aplicar algumas coisas por conta do que ainda não existe. A pandemia jogou na nossa cara que estamos precisando mudar de fato. Alguém precisa identificar e entender nosso trabalho para melhorar. Existe falta de organização de educação nacionalmente. Todo mundo está sobrecarregado e não é incapacidade porque fazemos mais do que deveríamos”, diz.

Resgate da dignidade

Diretor de escola localizada na área rural de Suzano, a EM Profa. Nizilda Alves de Godoy, Marcelo Marques de Souza afirma ter resgatado algumas pessoas da total inexistência estatística a partir desse projeto. Foi o caso de cinco pessoas de uma família sem qualquer documento pessoal, com possibilidade mínima de se enxergar como um cidadão. A região onde a escola está localizada convive com o avanço da população em condições de total vulnerabilidade, o que torna a área rural cada vez mais próxima das comunidades desassistidas, com moradias em terrenos invadidos, sem saneamento básico e água potável.

“Esse projeto do Cultiva nos dá brilho no olhar. A crença de que é possível fazer algo a mais, além do nosso papel na educação. Para que as pessoas tenham ou resgatem a dignidade, com atendimento de qualidade que nós, como agentes públicos, precisamos dar a elas”. Ele relata que muitos educadores de Suzano já tentavam, há algum tempo, se aproximar dos pais, promovendo conversas dentro de um método próprio, nas condições e realidades de cada um. “Acompanhávamos os casos de maneira muito empírica. O Instituto Cultiva pega metodologias já testadas e aprovadas em outros lugares para criar uma metodologia própria em Suzano, criando uma rede dentro da cidade”, comenta.

Otimista, Marcelo Souza lembra Paulo Freire quando ele dizia que esperança provém do verbo esperançar. Não de esperar. “Nosso olhar é esperançoso, de construir uma educação melhor para colocar os sujeitos em pé de igualdade, para que as pessoas possam ter sua dignidade resgatada”.

“Há um deslocamento contemporâneo do que é público e do que é privado. Por isso, as pessoas rejeitam e desprezam o que é público. Essa é uma ação política que fomenta uma prática de conjunto e cria consensos mínimos” – Eduardo Brasileiro

 

Veja os depoimentos dos articuladores

Entrevista com o presidente do Cultiva