Por: Laura Uliana

A educação global, mesmo antes da pandemia de COVID-19, já enfrentava grandes desafios, por vir de uma tradição neopositivista que mais validava conteúdos decorados do que o conhecimento construído e a formação cidadã. Por isso, a necessidade de mudança é grande e urgente. O papa Francisco, a partir de um encontro ecumênico com lideranças judias e islâmicas, propôs um Pacto Educativo Global, justamente por compreender a importância da educação ao formar jovens cidadãos. Este Pacto é discutido por instituições em diversos países, incluindo no Brasil, que olha para as dificuldades existentes em nosso território. No Brasil, quem coordena é o Instituto Cultiva, a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, o Instituto Casa Comum, o Instituto Paulo Freire, a APEOESP, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o Instituto ALANA, a UMBRASIL e o Conselho de Educação Popular de América Latina e Caribe (CEAAL). Além destes, a articulação brasileira lançou um documento sobre o que se espera da educação pós-pandemia assinado por 58 entidades.

“A educação não pode ser neutra. Ou é positiva ou negativa; ou enriquece ou empobrece”
— Papa Francisco.

A intenção do Pacto é de que lideranças se unam para pensar em uma educação humanista, tendo a pessoa como foco principal e rejeitando a chamada cultura do descarte, que é a maneira como se refere à economia atual . Além disso, rejeita-se esta maneira de educar para o individualismo, priorizando a formação de cidadãos que ajam em prol de suas comunidades.

A importância de se tomar partido ao se tratar de educação é fundamental para o Papa Francisco: “A educação não pode ser neutra. Ou é positiva ou negativa; ou enriquece ou empobrece”,  disse em um encontro da Scholas Ocurrentes, fundação nascida em Buenos Aires pelas mãos do atual pontífice — na época em que ainda era Arcebispo — que visa a união de estudantes do mundo todo em defesa de uma educação baseada no esporte, na arte e na tecnologia.

O Pacto prega uma educação que inclua e empodere as minorias. Uma de suas defesas, inclusive, é do cuidado com a “Casa Comum”, voltada à educação ecológica, fundamental em um momento no qual vemos a destruição do que nos resta de natureza na Terra . Além disso, a articulação brasileira se coloca contrária ao que Paulo Freire chamava de educação bancária, que coloca o professor como detentor de todo o conhecimento e ignora as individualidades e contribuições dos alunos.

Uma das defesas do Pacto é, justamente, a laicidade do Estado, além da defesa dos Direitos Humanos, a pluralidade de ideologias  e, inclusive, a rebeldia a estados totalitários como direito. No Brasil, há a defesa da educação pública, gratuita e laica, diferentemente de como vem sendo tratada por diversas lideranças políticas no país. Apesar disso, Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva e coordenador da articulação brasileira do Pacto, está otimista, pois ele leva em consideração as últimas batalhas nacionais pela educação, como, por exemplo, a aprovação do FUNDEB, nas quais as pautas humanistas apresentam muitas vitórias .

A ideia do trabalho é, além de realizar seminários, fazer pressões políticas e, também, trabalhar com universidades a ideia da formação dos professores,  ou seja, tomar ações práticas e concretas para colocar em prática — e em pauta, afinal, tudo no Pacto é construído com diálogo e não imposição— os ideais discutidos no Pacto Educativo Global. Segundo Rudá Ricci, “o pacto não é uma discussão acadêmica; o pacto é uma disputa política pela educação humanista no Brasil e no mundo.”

 

Baixe o documento do pacto educativo