Por Rudá Ricci

No Brasil, país latino, o esporte é a aposta. Um movimento infantil, de autoafirmação, em que se pretende vender a imagem de adivinho. Algo intrigante, dado que se o apostador perde, mergulha na penumbra do esquecimento. Se vence, gera uma ou outra surpresa até fazer a aposta errada. Algo muito similar com as apostas feitas em casas lotéricas. De tempos em tempos, aparece um vitorioso que leva milhões e que, meses depois, mergulha no anonimato e a vida segue adiante.
Nessas eleições de 2020, tivemos muitos apostadores. Alguns conseguiram lograr êxito. Muitas vezes, acertaram por vias absolutamente tortas.
A palavra que define essas eleições não é derrota, nem mesmo vitória, mas transição. Uma transição de uma decisão que tinha se formado entre 2016 e 2018 e que, agora, parece se dirigir ao lado oposto. Aliás, a decisão de 2016 já tinha cravado uma mudança importante em relação ao que o eleitor médio havia decidido desde 2002. Se há algo, então, a apostar é que não há o que apostar. O eleitor caminhou do lulismo – refutando os candidatos de centro-direita – para o bolsonarismo, os outsiders de extrema-direita e os candidatos-empresários apolíticos para, agora, cravar no centro-direita, no tradicional, no conhecido.
Este eleitor impôs efetivamente uma derrota à centro-esquerda ou à extrema-direita? Ou, ainda, o eleitor definiu efetivamente o rumo da política nacional ou ainda toma fôlego e analisa o caminho mais adequado?
O eleitor médio, sabemos, é desconfiado. Amarga uma vida difícil no sétimo país deste planeta em desigualdade social. Uma desigualdade histórica, que marca a pele de sua família como o ferro ardente marcava a pele de escravos. Ele trabalha, se esforça, engole seco, mas um ou outro consegue superar a barreira da pobreza e da marginalidade. Este eleitor médio se projeta em uma ou outra celebridade – já que não vê muitas possibilidades de superar seu carma social por suas próprias forças e iniciativas -, algumas vezes procura um pai que o valorize e dê guarida, mas, não tem muita fé que pela política se saia do jogo das elites, o jogo da perpetuação da desigualdades social que mais parece um estamento, uma sociedade organizada em castas.
Então, a primeira palavra é transição. Uma transição que foi do lulismo à extrema-direita. O eleitor parece esgotado e fincou o voto no já conhecido. E, convenhamos, conhecido na política brasileira é o centro-direita, a ARENA. Práticas clientelistas, um certo toque de populismo, muito fisiologismo e certa caridade. Estes são os ingredientes do já conhecido. Não deve animar muito o eleitor. Mas, ao menos não ingressa em aventuras que o leva à esperança para, logo adiante, se frustrar. Prefere tentar a sorte naquela velha sequência de números que joga há décadas na casa lotérica da esquina. Não dá em nada, mas, talvez dê.
A transição fez a roleta parar no centro-direita. Isso é certo. O PSDB governará para 16% da população brasileira e o MDB, para 12%. Em seguida, aparecem DEM (governará para 11,5% dos brasileiros) e PSD (10,3%), PP (7,7%), PDT (5,1%), PL (4,2%), PSB (3,8%), Republicanos (3,5%), Podemos (2,8%), PT (2,6%) e Cidadania (2%), lista que totaliza pouco mais de 80% da população nacional.
A lista revela que os partidos de centro-direita se saíram bem. Os candidatos bolsonarista e o centro-esquerda não colheram frutos em abundância. Mas, isso não garante vida fácil para o centro-direita daqui por diante. Afinal, estamos falando de uma foto de momento. O eleitor está se movendo, mudando de posição desde 2002, quando rompeu com a “opinião pública”, este conceito anglo-saxão e liberal em que se acreditava que o eleitor médio votaria com a classe média, os verdadeiros formadores de opinião. O eleitor médio brasileiro, em 2002, apostou em algo diferente. O problema é que o vencedor insistiu em trazer o centro-direita para o centro do governo, no caso, o governo lulista. O lulismo deu vida e viço ao centro-direita que, agora, está novamente no centro do poder: pelas mãos dos militares bolsinaristas que os convidaram a governar com Jair, mas, também, pelo voto das eleições municipais.
Enfim, o centro-direita se valeu de mais uma mudança de posição do eleitor.
Mas, o que aconteceu com o centro-esquerda? Sugiro que vive uma transição própria. Mais uma.
Primeira transição do centro-esquerda: o PT perde a hegemonia neste campo político-ideológico. Agora, está mais plural. PSOL, PSB e PDT se fortaleceram. PT e PCdoB diminuíram de tamanho, o que nos levaria à uma segunda hipótese: no centro-esquerda, quem perdeu foi o lulismo, os partidos deste campo ideológico que mais se identificaram com o lulismo.
Contudo, houve uma segunda transição: as estrelas foram as mulheres. Boulos saiu destas eleições como a nova estrela do centro-esquerda nacional. Mas, esteve ao lado de Erundina. Em Porto Alegre, brilhou a estrela de Manuela. Em Recife, de Marília. Em Minas, duas vereadoras eleitas pelo PT e duas prefeitas neste segundo turno (de um total de 4 que o PT conseguiu eleger neste segundo turno). Em Minas Gerais, o sinal parece ter sido mais claro: as duas prefeitas eleitas não são da corrente majoritária do PT, não são da corrente de Lula.
Houve, ainda, uma inovação no campo de centro-esquerda para as eleições parlamentares. E esta inovação já começa a render uma articulação nacional multipartidária: a covereança. Também denominadas de candidaturas coletivas, trata-se do registro de uma candidatura que, na verdade, se apoia em vários covereadores que fazem campanha em seu nome – ou no nome da covereança -, em territórios próprios, a partir das pautas que cada covereador defende ao longo de sua militância: direitos LGBT, direitos da mulher, transporte público, educação, SUS, antirracismo, a agenda se multiplica em mosaico e os eleitores elegem um colegiado que tem a sua cara. Quem liderou as dezenas de candidaturas deste tipo novo? Mulheres.
A transição que se apresentou em 2020, portanto, tem camadas.
Não se trata de aposta num futuro incerto. Também é cedo para se falar em tendência. Mas, é possível afirmar que o eixo da política nacional se alterou nesta eleição que acaba de terminar. Do extremismo de direita para o centro-direita, do lulismo para a pluralidade do campo de centro-esquerda, do eterno comando masculino para as novidades femininas.
Olhando rapidamente, a paisagem parece cinza, a cor do centro-direita. Mas, se ajustarmos o foco, veremos mais cores do que a grande imprensa se esforça para encobrir.